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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Diretores - Glauber Rocha



"Continuo fechado com minhas posições de um cinema terceiro-mundista. Um cinema independente do ponto-de-vista econômico e artístico, que não deixe a criatividade estética desaparecer em nome de uma objetividade comercial e de um imediatismo político." [G. R.]

Glauber de Andrade Rocha veio ao mundo no dia 14 de março de 1939, na cidade de Vitória da Conquista, Bahia. Nasceu, como muitos historiadores dizem, de um paradoxo: Adamastor Bráulio (nunca pensei que eu fosse escrever essa palavra!) Silva Rocha, seu pai, era católico não-praticante; sua mãe, Lúcia Mendes de Andrade, era protestante.

E, desde cedo, é possível perceber a influência que dona Lúcia exerceu sobre o pequeno garoto. Diferentemente das demais mulheres interioranas daquela época, ela gostava de ler de tudo um pouco. Foi numa dessas leituras, mais precisamente ao ler a biografia do químico alemão Johann Rudolf Glauber (1604-1670), famoso por descobrir o sulfato de sódio, é que surgiu a inspiração para o futuro nome de seu filho. Temeroso com o período de efervescência anti-germânica que se anunciava, Adamastor foi contra a escolha, imaginando como seria a vida da criança carregando o nome de um alemão. Contudo, acabou cedendo aos pedidos da esposa.

Alfabetizado pela mãe, também foi levado a seguir a religião dessa. Logo se mostrou uma criança curiosa e precoce, sempre disposto a ouvir rádio ou ler algum livro da grande coleção da mãe. Aos 9 anos, mudou-se com a família para Salvador. Nessa época, começou a escrever pequenas histórias e esboços de peças de teatro, as quais encenou, posteriormente, quando iniciou seus estudos no colégio Dois de Julho.

Gostava muito de ouvir a conversa dos adultos, prestando atenção às palavras pronunciadas. Por ter nascido em uma cidade do interior, identificava-se com as coisas simples, além das tradições e lendas do sertão. Histórias de jagunços e cangaceiros eram suas favoritas.

Na adolescência, já bastante integrado a vida religiosa imposta pela mãe, Glauber também começou a revelar outra característica marcante de sua personalidade: a vocação política. Nitidamente mais versado que os meninos da sua idade, tinha como gosto entrar em discussões sobre o assunto com os mais velhos. Outro vício eram as sessões vespertinas nos cinemas da cidade de Salvador.

Em 1959, iniciou seus estudos na Faculdade de Direito da Bahia, largando dois anos depois para começar uma breve carreira jornalística que, hora ou outra, tendenciava para sua paixão pelo cinema. Tentou pregar novos pensamentos para a arte cinematográfica, algo que a transformasse num veículo de transmissão da realidade social, renegando às influências pouco prestativas vindas do cinema norte-americano.

Nesse ponto, Glauber Rocha se assemelha muito a François Truffaut: depois de filmar alguns curtas metragens e fundar sua produtora, ele “caiu” na direção do filme “Barravento” (1961). O filme, como o próprio Glauber definiu, é “um ensaio cinematográfico, uma experiência de iniciante”.

Desde o início do período de Ditadura Militar, Glauber Rocha era visto como um elemento subversivo. A relação entre eles (Glauber e a Ditadura) perdurou até que, em 1971, ciente dos perigos que corria, o cineasta decidi partir para o exílio. Nessa época, Glauber já era um diretor admirado e conhecido em todo o mundo, fato devido, principalmente as premiações conquistadas no Festival de Cannes com os filmes "Terra em Transe" (1967) (prêmio do júri) e "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro" (1968) (prêmio de melhor diretor).

Contudo, com o exílio (passou por alguns países europeus e africanos, por Cuba e Estados Unidos), parece ter perdido suas raízes. Retorna ao Brasil elogiando o governo militar, fazendo reportagens para a televisão e realizando um filme desastroso, sem pé nem cabeça ("A Idade da Terra", de 1980). Em quanto esteve fora do Brasil, dirigiu pequenas produções, com destaque para o filme "Der Leone Have Sept Cabeças" (1970), rodado no Zaire.

Seus filmes são uma mistura de folclore e tradições nacionais, com textos políticos e religiosos. Na maioria de suas produções, percebe-se uma nítida relação com o antigo teatro português (Autos).

Já vivendo em Sintra, Portugal, enquanto se preparava para iniciar as gravações de um novo filme, adoece, vitimado por uma broncopneumonia. Duas semanas depois, é transferido para uma clínica no Rio de Janeiro, onde vem a falecer em 22 de agosto de 1981. Considerado, hoje, um dos principais cineastas que esse país já teve, Glauber Rocha foi um diretor controvertido e incompreendido no seu tempo, além de ter sido patrulhado tanto pela direita como pela esquerda brasileira. Ele tinha uma visão apocalíptica de um mundo em constante decadência e toda a sua obra denotava esse seu temor.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:


H (orgulho de ser brasileiro!)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Cultura-Brasil? Qual?!


Se fosse a mão esquerda do Lula, adivinhem qual cor faltaria... rs

Recentemente, fiz um trabalho sobre políticas culturais que pretendia analisar as considerações dos secretários de cultura de mais de 750 municípios nacionais. Para isso, o professor que ministrou a disciplina elaborou um questionário que, na minha humilde opinião, tentou englobar de maneira simplória o universo cultural do microcosmo regional. Claro que, em se tratando de cultura e Brasil (duas palavras que não combinam bem numa frase afirmativa!), o número baixo de questionários respondidos, apesar de esperado, só foi ainda mais desanimador. Assim como a maioria das respostas concedidas.

Abaixo, transcrevo uma parte do trabalho final entregue pelo grupo no qual tive participação mínima. A pergunta em vista, solicitava que o responsável pela pasta citasse o maior objetivo da Cultura na sua gestão. Posso dizer que achei a pergunto um pouco subjetiva demais. Se por um lado ela tentava medir o entendimento do conceito de “cultura” pelo secretário, por outro, ela abria brechas para um desabafo, trazendo à tona uma problematização que não cabia na determinada questão. Bom, leiam e julguem vocês mesmos:

“Apesar das várias definições sobre cultura que podemos encontrar na literatura da área, as respostas dadas pelos representantes se mostraram bastante centradas no binômio preservação da cultura local / apropriação da cultura pela população (quase 70% das respostas eram relacionadas a isso). Porém, mesmo demonstrando essa preocupação com o estreitamento da relação entre a população e a política cultural, é difícil imaginar como isso seria possível se a grande maioria das secretarias respondeu não focar suas ações culturais numa determinada faixa etária e/ou social.

Tendo em vista que a melhor maneira de expressão para as ações citadas acima seja por meio de manifestações populares, de caráter inclusivo na produção cultural, seria mais do que imprescindível a tomada de um foco social e/ou etário participativo em grande parte do plano cultural do município.

Analisando bem as demais respostas, fica claro que alguns secretários ainda possuem calcificada a ideia de que a existência da apropriação da cultura pela população está ligada a construção e/ou restauração de prédios para abrigar museus ou bibliotecas [entre outras Unidades de Informação]. Claro que essas ações são necessárias. Mas não como principal forma da citada apropriação.

Construções como essas são tidas mais como meios para conservação/preservação de artefatos culturais. Servem, então, como ‘laboratório’ para o crescimento cultural de seu povo. Para tanto, a melhor maneira para aliar ações culturais e população seria promover ações que contribuam para a expressão popular regional: musicais, festas típicas, que envolvam o indivíduo na sua criação, seja intelectualmente, ou através da escolha programática.

ROUANET define o direito à produção cultural como ‘direito que têm todos os indivíduos de exprimirem a sua criatividade’. Talvez esse seja o grande mote que a política cultural nacional deva seguir: garantir a apropriação cultural sem deixar de lado o incentivo à criatividade individual.”


ROUANET, Sérgio Paulo. Política cultural: novas perspectivas. In: ALMEIDA, Candido José Mendes de; DA-RIN, Silvio. Marketing cultural ao vivo: depoimentos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.


H (crie e ative a sua)