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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Prerrogativas de uma morte anunciada¹ - Conto perdido²


Tudo aconteceu tão rápido...

Apesar d’ele saber que era impossível, aquele parecia ser mais um dia como outro qualquer. Nenhuma novidade, nada fora do comum (como se o ‘comum’ fosse algo mensurável).

Mas tudo aconteceu tão rápido... quando se deu conta, já havia sido atingido, forçado a girar nos calcanhares, sendo a queda algo inevitável. Se Newton e Murphy estivessem ali, com certeza estariam apontando o dedo para sua cara enquanto gritavam efusivamente “ninguém escapa das leis, rapaz!”

Estendido sobre o asfalto escaldante, o único calor que sente, porém, é o do líquido viscoso que se esvai pelos seus cortes, impregnando-se em sua pele suada, formando pequenas poças brilhantes de um aroma repulsivo.

Começa a sentir frio.. não aquela sensação gélida relacionada à baixas temperaturas.. não, é uma sensação de vazio, um calafrio persistente percorrendo, vagarosamente, sua espinha de cima a baixo e estagnando em seu estômago.

Deve ser assim que as pessoas se sentem quando estão nessa situação, pensou ele. Um turbilhão de pensamentos fragmentados começou a invadi-lo.

Se esse era seu último instante, se pôs, então, a pensar em quem sentiria a sua falta. Talvez a Laura?! Pouco provável, já que não se viam há mais de 2 anos. E seu círculo de amigos?! Thomas, Marcelo, Eduardo... talvez não de todo. Afinal, como dizia Victor Hugo, eram corajosos sem dúvida... mas fidelidade era algo que sua amizade, provavelmente, não inspiraria numa hora como essa.

E o que seria de seus pais?! Como suportariam passar por isso?! Seu pai, militar aposentado, amargo e ranzinza por experiência de vida, certamente, diria “e o que mais poderia se esperar? Nascido de um acidente, só poderia morrer do mesmo modo”. Sua mãe, reservada por apelido, enlutaria-se por uma semana, choraria uma vez ou outra e logo esqueceria.

Lançou um olhar a sua volta. Na verdade, nem meia-volta. Com uma das bochechas colada ao solo, ficava impossível um ângulo de visão maior que 120º. Diante de tantos rostos desconhecidos, com suas impressões que iam da indiferença a curiosidade mórbida (óbvio!), balbuciou um inocente “me desculpem”, porém, isso só lhe fez recordar dos versos de Chico Buarque, que ele, apenas por não ter nada mais urgente por fazer, começou a murmurar:

“E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
”

Logo vieram a mente as lembranças de seu avô.. a velha vitrola onde ouvia Chico Buarque numa repetição exaustiva.. a precária máquina Olivetti, da qual saiam sons quase tão belos quanto dos discos de vinil.. as vezes em que sentava na calçada, junto ao seu avô.. olhos fixos no horizonte e ouvidos atentos as maravilhosas histórias que ele tinha para contar.

De repente, ao longe, ele ouve um sussurro a lhe chamar... seria Deus, ou algum de seus intermediários?! Supostamente, não.. Deus era um luxo para o qual ele nunca se sentiu tentado a dedicar muito do seu tempo. Apreciava, era verdade, toda a mitologia construída a sua volta: céu, inferno, reencarnação, pecados, arrependimentos... mas acreditar, isso era assunto para adultos.

- Ei, Edgar.. Tá tudo bem?! Deixa eu te ajudar a levantar – disse Thomas, seu melhor amigo, estendo-lhe a mão.

- Obrigado... cof, cof...

- Por que você ficou tanto tempo caído? No que estava pensando?

- Nada em especial... apenas nas prerrogativas de uma morte anunciada – exclamou Edgar, averiguando se estava tudo nos devidos lugares.

- Eu sabia! Você e seus pensamentos funestos! Melhor voltarmos ao jogo.. acho que ainda podemos reverter o placar – disse Thomas, se afastando do amigo.

- Funestos?! – indagou Edgar. E, desolado, completou num sussurro - Até a morte idealizada perdeu seu direito de existência.


H (bons tempos)


¹ Qualquer coincidência com o título do livro "Crônicas de uma morte anunciada", de Gabriel Garcia Marquez, acreditem, não é mera...

² Conto escrito, originalmente, em 19 de janeiro de 1999, em homenagem ao 190º aniversário de nascimento do escritor Edgar Allan Poe.


Imagem retirada daqui

domingo, 31 de maio de 2009

Post convidado: conto encontrado


O encontro estava marcado para às 18h. O relógio no seu pulso já mostrava 17:45h.. e ele continuava ali, parado. Não sabia se escutava música, se lia algo, se matava a maldita mosca que o perturbava ou se desistia de tudo aquilo de uma vez.

Um amigo lhe disse para seguir em frente, que a "pessoa" era de confiança. Mas, como ir em frente, se a perna estava formigando, a vista estava turva, as mãos empapadas de suor, tremiam como vara-verde.

Aos poucos, deu à partida, soltou o freio de mão e pôs o carro para andar, com o amigo ao lado sempre dizendo:
- Mais rápido.. vamos chegar quando não tiver mais ninguém!

Mas ele nem ligava, somente pensava como seria sua vida depois desse encontro. Talvez tudo continuaria como sempre foi. Ou mudaria radicalmente. Quem iria saber?

A cada sinal vermelho, uma parada. Mesmo se não tivesse ninguém no sinal. Após tanta luta para esse encontro, ele estava ali, parado diante de uma bifurcação, resolvendo entre a velha e a nova vida. Mais uma olhada no relógio: 18:10h. De repente, seus olhos pararam num anúncio automobilístico esquecido na porta do carro. Uma ave abrindo espaço pelos ares.

De repente, como num pensamento que surge do nada, ele virou o carro para a direita e correu o mais que pode. Buzinou para qualquer um que se apresentava a sua frente. Xingou e rexingou o amigo. Estava irreconhecível.

Largou o carro em local proibido, abriu rapidamente à porta e correu para dentro daquele lugar imenso. Enquanto atravessava o caminho como uma flecha, algumas pessoas cochichavam, apontando para ele. Ignorou tudo isso.

Chegou no altar, tomou fôlego e, quando todos já faziam uma expressão de alívio, ele a olha bem nos olhos e diz "desculpa, mas não!". Corre de vota para o carro, canta os pneus e segue para onde o vento o levasse. Ia o mais rápido possível, pois tinha um escontro marcado com sua própria vida. E já estava atrasado há mais de 20 anos.

Michel Ferrera


H (Qual caminho seguir?)
* Imagem retirada do blog Quark part of human