sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Conversação, metamorfose, aquarela

Metamorfose de Narciso, de Salvador Dalí

Um dia, meu filho, quando você já estiver bem próximo da minha idade, você olhará para essas mesmas lembranças e sentirá falta de tudo relacionado; Porém, e é o mais provável que aconteça, talvez você simplesmente nem as recorde, daí você apenas perceberá que sente falta de algo, sem saber ao certo de quê.”

No feriado mais recente, pela primeira vez eu anos, sentei-me com minha mãe para conversar. Não foi nada programado, até porque, se o fosse, certamente não funcionaria. Mesmo morando juntos todos esses anos, nossas conversas deixaram de ser rotina há pelo menos uma década.

Talvez pelo próprio momento de ambos, foi quase inevitável esse “encontro”. Eu precisava de um “colo” (e minha mãe é ótima pra isso) e ela precisava de dois ouvidos. As palavras brotavam com naturalidade. Mais emotiva do que eu, não demorou muito para ela estar aos prantos. Eu parei de falar. Fiquei ali só olhando para seu rosto já marcado por profundos vincos de sofrimento e auguras. E aqui eu quero abrir um parêntese:

Minha mãe, a primeira de sete filhos, nasceu no interior do Paraná. Perdeu a mãe logo cedo (aos 4 anos) e foi criada pela avó materna. Uma educação rígida: mulher não tinha que estudar; tinha que aprender tudo relacionado ao lar: cozinhar, lavar, passar, cuidar das crianças. O máximo de liberdade que ela conseguiu foram as aulas de costura, isso já com quase 20 anos. Nessa mesma época, surgiu o primeiro pretendente a marido. Ela não o quis. Não queria ficar presa aquela cidade, às lembranças que só lhe faziam mal. Não queria levar uma vida de dona de casa. Tinha o sonho de ser professora. Porém, destino escrito não tem como ser ludibriado. Anos mais tarde, ela conheceu meu pai. Como já estava (segundo a própria) naquela idade crítica onde não choviam tantas opções, resolveu se casar com ele mesmo. E daí já se vão 30 anos como dona de casa. Criando filhos, agüentando desaforos, engolindo revoltas.

Enquanto ela desabafava suas mágoas, eu me perguntava quantas daquelas rugas em seu rosto não eram por minha causa. Quantas noites em claro ou mal dormidas ela não deve ter passado ao meu lado? Quantas vezes foi me defender na escola? E tantas outras coisas que não consigo quantificar agora.. e quando foi que eu lhe agradeci?! Ou, na melhor das hipóteses, tomei conta de sua dedicação?!

Percebi que os meus problemas não passavam de pequenos arranhões perto dos socos e pontapés que a vida já havia lhe dado. Meus olhos ficaram marejados diante de tal sensação. Será que, um dia, serei assim também, frustrado com o rumo que minhas escolhas me levarão?!

Resolvi, a partir daquele momento, parar de transformar meus problemas solucionáveis em obstáculos intransponíveis. Afinal, todos nós temos alguns. É a nossa forma de lidar com cada um deles que nos define.

E eu, nesse ponto, sou um fracassado. Primeiro, porque ainda não aprendi a lidar (satisfatoriamente) com meus problemas, mesmo quando eles se repetem várias e várias vezes. Arrumo fugas e escapatórias mirabolantes (algumas, bem fantasiosas). Tudo porque não tenho coragem de enfrentá-los (os problemas) de frente. Talvez porque fui criado assim: ao menor sinal de perigo, “corra para as colinas!” (rsrs). Segundo, porque tal maneira de não-enfrentamento acaba, muitas vezes, transparecendo aos demais como uma falha, uma arrogância da minha parte. E não o é. Ao menos, não de todo. É apenas o único modo de agir que conheço.

Ou melhor, conhecia! Graças a algumas pessoas (para as quais estou preparando um post-homenagem em breve), estou conseguindo aprimorar minha auto-estima, aprendendo a enxergar e, principalmente, me sentir completo pelas minhas próprias conquistas.

Assim, sinto que estou deixando de ser (apenas) aquele objeto frio e reflexivo, um ‘espelho voltado aos que me rodeiam’, um pedaço de vidro moldado alheiamente. Metamorfico-me, aos poucos, sem pressa, num quadro inacabado. Minha própria obra de arte. Minha vida de óleo em tela.


H (“O que não me mata, me fortalece”, Friedrich Nietzsche)


* Imagem retirada daqui

domingo, 28 de novembro de 2010

Momento poesia XL


Quadragésimo "Momento poesia"! Nunca imaginei que pudesse chegar tão longe. E não é para menos a minha alegria. Esse é o 'quadro' do qual mais fiz uso nesses últimos 28 meses.

Foi através dele que me inspirei, não só criando coragem para transcrever meus próprios trabalhos, como também compartilhando poemas de amigos e ídolos.

E o de hoje é especial não por marcar o fim, algo que já tentei, por duas vezes, sem sucesso. Porém, tenho-o como o ponto de largada para algo que terá um término próximo: 15 de janeiro. Encontrar tal poema, e não encontro termo mais apropriado, foi destino. Ela estava ali já havia tempos. Mas só me foi revelada agora, porque agora era o seu momento. Momento esse que dedico a seguir (e sem maiores explicações):


Não-lugares*


O sonho é um não-lugar
que habito
virtualmente
- no tempo e no espaço
da não-existência
de cuja permanência
ou imanência
dependo.

Entendo: sonho, logo existo.


No bonde, antigamente...
No trem, no navio, em movimento
- um não-lugar concreto.

E na internet, atualmente.

O bonde trilhado
O avião voando
O navio...

Existe lugar em movimento?

(Um-lugar-de-momento).


Onde estou, se sou?
Mas não estou em mim,
necessariamente.

Habito uma galáxia
(planetária)
em expansão
(informacional)
e sou onde estou.


Se existem tantos centros,
eu sou um deles
- o único possível para mim.

Não por causa do egocentrismo
ao contrário:
por causa do exocentrismo
- o sair de mim,
o expandir-me
pelo compartilhar
pelas relações múltiplas, rizomáticas, fractais.


Se escolho navegar também sou escolhido
viro um escolho no oceano e também escolho
minha centralidade
(eu quase disse individualidade).
Fracionando-me pela rede.
Distribuído, digerido
- vomito e, na volta, me devoro
e excreto: sou mutante.


Vou aonde a rede me levar.

E o meu endereço
(o meu lugar) é a rede
em que descanso
e me reencontro:
eu-ilha
virilha
trilha...
(e outras relações metatextuais
ou hipertextuais).
Demais!

(Antonio Miranda)


* Retirado da parte inicial do livro "Informação e tecnologia: conceitos e recortes", de 2005, organizado por Antonio Miranda e Elmira Simeão.

Imagem retirada desse blog.


H (logo ali)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Top 10 filmes que mudaram minha vida


Cinéfilo que se preze, adora uma lista. Mais ou menos um mês atrás, uma das minhas melhores amigas, sabendo o quão difícil seria para mim (sim, ela sabe ser malvada!), me propôs um desafio: levantar uma lista com 10 filmes que, de alguma forma, mudaram a minha vida.

Tentei discutir com ela que achava a explicação do repto meio, digamos, óbvia. Bastava fazer uma lista com meus 10 filmes favoritos e pronto. Depois de muito discutirmos (e bebermos), chegamos a algumas conclusões: 1) Não bastava a identificação com a película; era preciso um "contexto", alguma experiência que tivesse ficado gravada com o filme; 2) Aprendizados e primeiras vezes são aceitas; 3) Nenhum diretor devesse se repetir; 4) Faz-se necessário uma gradação ("1" para um menor importância; "5" para um maior destaque), enfatizando, assim, a importância que cada filme teve.

Dessa forma, resolvi trazer informações adicionais, como os anos de produção e da sua primeira exibição a minha pessoa. Além, é claro, de um pequeno comentário sobre o porquê de seu destaque perante tantos outros que já vi. Vale ressaltar que eles não são, obrigatoriamente, meus filmes favoritos. Segue a lista:



Jurassic park (Steven Spielberg)

Produção: 1993
Ano em que assisti: 1995

Ensinamento nenhum, na verdade. Mas eu não poderia deixar de fora dessa lista o primeiro filme que vi numa sala de cinema. Às vezes, quando entro numa sala depois de um longo período de “jejum”, algumas lembranças daquele dia ainda me invadem. É um filme que tenho como especial por ser o precursor desse meu vício cinéfilo.

Baseado naquilo que disse sobre precursor, a nota fica em 4,8.



Aracnofobia (Frank Marshall)

Produção: 1990
Ano em que assisti: 1996

O mérito desse está no pavor que me causou. Sim, pavor! Quem me conhece bem, sabe que o meu maior medo com relação ao mundo animal é de aranhas. Precisei de três “tentativas” para conseguir assisti-lo até o fim. Foi realmente uma superação quando consegui chegar aos créditos finais.

Pela persistência e superação, 4,2.



Amadeus (Milos Forman)

Produção: 1984
Ano em que assisti: 1996

Foi, durante um curto espaço de tempo, meu filme favorito. Hoje, ainda preciso refazer as contas, mas, provavelmente, nem figure entre os “10 mais” (rsrs). Mesmo assim, é um dos filmes biográficos que mais gosto, por conseguir aliar soberbas atuações (como a de F. Murray Abraham no hospício, logo no princípio) com uma trilha esplêndida. Depois desse, música clássica se tornou outro vício em minha vida.

Por tudo que já foi escrito, 4,4.



O carteiro e o poeta (Michael Radford)

Produção: 1994
Ano em que assisti: 1999

O assisti dias antes de me apaixonar pela primeira vez. Lembrar das tais “metáforas” foi inevitável. Um dos filmes que mais me inspirou nos meus poemas. E quantas vezes não me identifiquei com a cena em que o carteiro Mario chega todo esbaforido para Pablo Neruda: “Don Pablo, aconteceu algo gravíssimo! Estou apaixonado!”; “Mas isso não é tão grave, existe remédio.”; “Mais que remédio!? Eu não quero remédio! Quero continuar doente!”.

Pela identificação e inspiração, 4,7.



Matrix (Wachowski Brothers)

Produção: 1999
Ano em que assiti: 2000

Apesar da diferença de um ano, eu o vi na sua estréia. Tanto se falou sobre sua produção, seus efeitos inimagináveis, que não consegui esperar alguns dias mais. Logo virou “cult”. E abriu as portas para o meu gosto por filmes repletos de efeitos especiais.

4,1.



A língua das mariposas (José Luis Cuerda)

Produção: 1999
Ano em que assisti: 2002

Assisti esse no cursinho que a minha namorada na época freqüentava. O filme é horrível. Mas a história tem seus momentos interessantes. No final, para quem prestou atenção, ficou evidente o quão difícil foi para o pequeno Mocho fazer a escolha que fez. Um filme sobre amizade que, no ato, me remeteu a minha relação de “aprendiz e mestre”, “filho e pai” com o Michel.

Pelas lembranças, 4,3.



Jogos mortais (James Wan)

Produção: 2004
Ano em que assisti: 2005

Esse é realmente especial. Lembro até da data exata: 09 de fevereiro de 2005. O filme em si até que é inteligente (pelo menos, até o terceiro). Mas o que marcou mesmo foi o contexto: logo que saí da sala do cinema, recebi a ligação de uma tia dizendo que eu havia passado na Fuvest! A partir daí, não teve jeito. Toda vez que revejo esse filme, só consigo pensar na sensação de “estar na USP”.

Pela sensação, 4,6.



Carros (John Lasseter)

Produção: 2006
Ano em que assisti: 2006

A primeira animação que vi no cinema. Minha namorada na época (sim, era outra!) me convenceu a assisti-lo, usando de todas as artimanhas que as mulheres possuem. Eu só fiz uma ressalva: não assistiria dublado. E assim foi. Fora isso, ainda há o fato de ter uma das músicas que mais gosto como parte de sua trilha (Rascal Flatts – Life is a highway) e a frase que, com pequenas modificações, se tornou meu “bordão”: “Eu sou assim. Desperto nos carros os instintos mais primitivos”. Foi, na minha opinião, o melhor filme que assistimos no (curto) tempo que ficamos juntos. Taí outro motivo para estar aqui.

Pela frase (e otras cositas mas), 4,5.



Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Michel Gondry)

Produção: 2004
Ano em que assisti: 2006

Quando a pessoa citada no texto anterior me deu um pé-na-bunda, uma amiga me indicou esse filme, dizendo que me ajudaria a transpor a sensação de dor e perda. Realmente o auxílio foi enorme. Tanto que, dali em diante, virou meu “filme-salvação” nas demais vezes em que situações como essa se repetiram (e quantas vezes!).

Pela ajuda (sempre), 4,8.



Nós que aqui estamos por vós esperamos (Marcelo Masagão)

Produção: 1998
Ano em que assisti: 2006

Lembro-me de ver o trailer desse filme no (para mim, extinto) “Fantástico” em 1998. Mal sabia eu, mas ali teve início a minha paixão por filmes com apelo pela narração de fatos históricos. Tentei de todos os modos vê-lo na telona, porém, sem sucesso. Até que, oito anos depois, quando comecei a estagiar no meu atual trabalho, o descobri entre os vários títulos da dvdteca. Fiquei fascinado. Não só pela maneira como foi produzido, mas, principalmente, depois que soube do contexto: fazer um documentário, em meados da década de 1990, usando apenas imagens de arquivo (ficcionais ou não, pouco importa) e música incidental, numa época em que os recursos tecnológicos não eram tão avançados. Achei bárbaro. Até hoje, tenho como o melhor filme dirigido por um brasileiro.

Sem mais comentários, 4,7.


H (cada qual com seu vício)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

My best dream* - post convidado


Salvador Dalí , Dream provoked by the flight of a bumble bee


Hoje eu me achei no direito de compartilhar com você algo que escrevi há alguns dias. Sei que não nos falamos há um bom tempo, por isso ele servirá para quebrarmos o gelo e trocarmos algumas palavras. Espero que você goste. Tudo começa mais ou menos assim:

De repente, despertei e me vi como um rei no meu castelo de cartas, construído bem fundo, no fundo do mar. Tudo contrastava belamente: o branco, vermelho e preto (do meu castelo) com o azul do oceano. Quando dei por mim, começou a nevar. Pequenos grãos de açúcar caiam vagarosamente, cada um no formato de um animal. Meu olhar se ateu em um deles e logo lá estava eu, cavalgando rumo a linha de chegada. Assim que a cruzei, meu cavalo ganhou asas e migramos para o sul nos orientando pelas estrelas cadentes que apareciam no horizonte. Num descuido, me desequilibrei e cai num funil formado de nuvens. Estendo meu braço e percebo de imediato: elas não eram feitas de algodão como sempre acreditei. Eram pequenos caleidoscópios formando desenhos lindos à medida que a gravidade fazia seu papel comigo. Esse eterno cair só teve fim quando vislumbrei um navio fantasma que navegava tranquilamente, rasgando esse céu vitral. Resgatado, cruzamos desfiladeiros de chaves, atrás daquela que abriria a caixinha de música pendurada no meu pescoço. Pelo tamanho da tal chave, era como procurar uma agulha num palheiro. Ficamos nisso o dia todo: Papai Noel, minha vizinha do 503, o pessoal da banda e eu. Quando finalmente a encontramos, tomou a forma de um cachorro que logo saltou sobre mim, dizendo “não jogue fora.. viva!”. Num movimento rápido, arranquei a chave da sua coleira e abri a caixa. Lá dentro, para minha surpresa, estava uma miniatura de mim ensinando Beethoven a tocar bateria. Contemplei a cena maravilhado. O som era tão harmonioso, que fui adormecendo aos poucos, a música ficando cada vez mais inaudível. Acordei num pulo, com o som estridente do meu despertador.

Agora você deve estar se perguntando porque lhe escrevi tudo isso. Afinal, qual a importância desse sonho? E, ainda mais, qual a minha (sua) relação com toda essa falta de nexo?

E eu lhe pergunto: sabe qual foi a melhor parte desse sonho?! Certamente você desconhece. Mas eu lhe digo: pela primeira vez em três meses, eu não sonhei com você ou com qualquer lembrança relacionada a sua pessoa. E isso foi um alívio. O melhor sonho que já tive.


Rebecca Ruiz


* Escrito, originalmente, em 15/10/2000; Modificado (em pequenas partes) em 28/10/2010.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Amarras invisíveis*


Muitas das suas ações não serão bem vistas pelas outras pessoas. Isso é fato. Não importa o quão significante você já foi para alguém, sempre aparecerá um indivíduo que se acha no direito de lhe julgar. E eu sou um brincalhão (fanfarrão não, Capitão Nascimento! Brincalhão!) e, por isso mesmo, gosto de ver todos ao meu redor felizes e rindo, principalmente se estiverem c/ algum problema. É espontâneo!

Num longínquo post, falei algo vago sobre espontaneidade. Taí algo sobre o qual tenho aprendido bastante. Não que eu seja o primor do ser espontâneo! Não, isso ninguém consegue sem muita prática. Mesmo assim, fico incomodado quando leio algum relato ou ouço uma conversa que gira em torno de “encontrar a pessoa perfeita”. Não sei se alguém já chegou a reparar, mas, quase sempre, uma das qualidades imprescindíveis ao tal indivíduo é ser sincero.

Há uma linha tênue que delimita espontaneidade de sinceridade. E, devido sua complexidade e a falta de tato desses que escrevem, deixemos as definições de lado, por enquanto. Tentemos apenas percebê-la: espontaneamente, ninguém (em sã consciência) sai por aí dizendo a torto e a direito o que sente sobre fulano e ciclano, certo? Por mais belo e romântico (ou, no caso de um desabafo, engraçado e aliviador) que isso possa parecer nos filmes, aqui, na vida real, isso nunca seria bem aceitável, tendo em vista os padrões morais da sociedade ocidental.

Mas por quê?! Por que não posso simplesmente acordar um dia, correr até o portão da minha casa e gritar que estou apaixonado (a) por tal pessoa?! Ou por que não posso mandar meu chefe para aquele lugar num dia considerado normal?! Pode parecer uma reflexão rasa, porém, a resposta está em nós mesmos. E aqui, voltemos a linha tênue do parágrafo anterior: a espontaneidade é bem vista (com restrições, é verdade!) quando o ato/ação limita-se ao universo do ator/atriz; ao incluir outros seres, tudo se transforma, ficando a mercê dos julgamentos alheios. É aí que a sinceridade vira inimiga. Afinal, quem gosta de ouvir uma crítica quanto ao seu comportamento, mesmo esse sendo compatível com a moral e os bons costumes da sua cultura? Acho que ninguém chega a esse ponto de sadismo.

Mahatma Gandhi, perguntado certa vez sobre o que ele achava das qualificações difamatórias que o governo britânico havia lhe atribuído, disse: sempre que estiver numa escolha entre sua consciência e sua reputação, prefira a primeira; sua consciência diz respeito àquilo que você sabe que fez; sua reputação é aquilo que os outros julgam que você fez.

Logo, podemos chegar a conclusão que viver é privar-se. Limitar nossos atos e ações aos moldes que nos são impostos desde cedo. Uma sucessão de desgostos, de restrições, de quereres que não se pode ter. Tudo porque escolhemos viver em sociedade; porque, apesar de dizermos (e até acreditarmos) que somos livres e independentes, sempre dependemos de outras opiniões, respostas, decisões.

Não me julgo competente o bastante para propor uma solução. Se a soubesse, acreditem, seria o (a) primeiro (a) a querer experimentá-la. O que se pode fazer é adaptar-se; moldar seus caminhos e escolhas levando sempre em consideração as muitas variáveis em jogo.

E desconsidere a felicidade e a perfeição, pois ambas são estados imaginários. É tediante ser feliz sempre ou totalmente perfeito. A graça da vida está nos defeitos, nas imperfeições, nos contrastes. Tudo com certo limite, lógico! Ninguém vive só (de preto) o tempo todo. É preciso (descolorir para) apreciar cada momento.


* Post escrito a quatro mãos. Logo, fica sem a assinatura de rotina.


Imagem retirada daqui