sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Semana de biblio - Meu agradecimento


Tentei de várias formas pensar em um jeito diferente para começar esse post. Na verdade, eu gostaria que ele fosse diferente por se tratar de uma homenagem a um grupo de pessoas que me ajudou (academicamente falando) a ser uma pessoa melhor.

Nas inúmeras possibilidades que imaginei, cheguei a conclusão que o melhor seria resgatar um dos meus artifícios mais presentes nesse blog em tempos vindouros: um momento flashback, ajudando, assim, a contextualizar minha aterrissagem num evento dessa magnitude.

Foi por acaso. Nem sei bem explicar como entrei nessa organização. No entanto, chega um momento na vida de todos em que nos sentimos tão inúteis que acabamos por aderir a algo revolucionário, algo que nos permita rev(iv)er aquela sensação de utilidade e revolução quando adentramos a faculdade.

Meu caso começou exatos 365 dias atrás, quando o Ilmo. Sr. RD Robinson me chamou para expor a sua ideia de levantar um projeto que se enquadrava perfeitamente na descrição do parágrafo anterior: a criação da empresa júnior da biblio.

O plano começou tímido, mas logo angariou mais voluntários. Não demorou a agregarmos outros projetos, como a recepção promovida aos bixos/2010. Ao final dessa, inclusive, o já citado Sr. RD, provavelmente inebriado pelo sucesso, me fez a proposta que considerei a primordial em toda a minha existência ecana até então: “agora, precisamos pensar na organização da Semana de Biblioteconomia”. Qualquer ser com um histórico parecido ao meu, de sedentarismo acadêmico, certamente, balbuciaria meia dúzia de desculpas e pularia fora.

Porém, e aqui reside a minha maior dúvida, por mais incrível que isso possa parecer, nem cheguei a pensar quando respondi: “considere-me dentro da organização!” Naquele mesmo dia, ao chegar em casa, não me reconheci quando me olhei no espelho. Aquele não podia ser eu!

Aos poucos, foram surgindo mais e mais pessoas interessadas em ajudar. E assim foram reuniões a se perder de vista; discussões através de emails, no corredor do CBD, nos sofás, durante tardes frias no CCSP (ou em bares pelo caminho). Meses de planejamento. Dez dias antes da data programada, surgiram os primeiros sinais de nervosismo, comuns em casos como esse onde impera uma mistura de insegurança, responsabilidade e esperança para que tudo funcione perfeitamente.

Claro que também é normal que surjam imprevistos pelo caminho. Arrisco dizer que são esses os artifícios que realmente separam um grande sucesso de um terrível fracasso. Não esmorecer nesses momentos de desconforto é que demonstra o quão empenhados estamos, dispostos a tudo para não ver pequenos detalhes impedirem o andamento natural das coisas.

Hoje (ou em dezembro ou no ano que vem) eu deixo a biblioteconomia com uma certeza que tentei por muito tempo contestar: seis anos atrás, entrei nesse universo por um motivo ridículo que logo caiu por terra; e, se continuo aqui, o fiz pelo simples fato de conhecer pessoas maravilhosas no decorrer dessa estrada.

Foi, não só uma das melhores semanas da minha vida, mas os dois melhores meses. Ir atrás de palestrantes, tomar decisões, passar por alegrias e tristezas. Enfim, eu gostaria de fazer um agradecimento individual, porém, como ficaria demasiado longo, o farei em conjunto:

* Ao pessoal da organização: Amanda (pelos momentos), Ana (pela sua criatividade inspiradora), Andréa (pela sua postura calma e tranqüila e pelas palavras no seu discurso final), Bia, Carol, Daniel (pela liderança natural), Eva, Fábio & Robson (pelos ensinamentos concisos e muito valiosos), Paloma & Patrícia (pelas conversas, conselhos, palavras de conforto e a amizade que perdurará por muito tempo);

* Menções honrosas: Jonathan (uma das melhores apresentações que vi), Marcela (por me mostrar que estamos sempre enganados quanto aos nossos pré-conceitos), Prof. Moreiro, Gisele Sousa e Robinson (pelo convite e confiança depositada em mim).

Dez anos atrás, numa época mais agitada da minha adolescência, um dos meus melhores amigos me propôs um desafio: escrever o epitáfio perfeito, aquele que melhor resumiria minha passagem pela Terra. Foi difícil. E o resultado final ficou uma bosta. Mas, até hoje, me lembro bem do que ele escreveu:

Aqui e ali,
Pedaços aos milhares;
Ali e aqui,
Vários pedaços em inúmeros lugares
”.

Algum tempo depois, ele me confessou que, para conseguir escrevê-lo, inspirou-se nas amizades que fez por onde passou. Hoje, sempre que penso nas minhas (poucas), essa frase é a que melhor as define. Como as que fiz durante a organização dessa Semana de Biblio.

Para finalizar, gostaria de citar, na íntegra, uma frase da Patrícia (pelo Twitter) que assino em baixo por sintetizar em poucas linhas tudo que a Semana de Biblio significou para mim e aquilo que julgo, hoje, o ponto primordial desse curso: meus colegas e amigos graduandos.

"A Semana da Biblio tá ótima,organizada, palestras com potencial modificador imenso...mas, confesso: o q mais me deixa feliz qdo chego em casa é a sensação de estreitar laços c/ pessoas q antes eram próximas, agora são tbm conjunto, grupo, coletivo...tô feliz demais #familiabiblio" (@PatHellmanns, 28/09).


H (Obrigado a todos)

domingo, 12 de setembro de 2010

Momento poesia XXXIX


Mario de Miranda Quintana foi "o poeta das coisas simples". Conseguia, através de poucas palavras, transmitir muito mais do que sensações e impropérios. Era um nômade, não só nas letras, mas também na vida.

Morreu sem nunca ter se casado. Também não teve filhos. Espero poder experimentar dessa mesma "negativa" até o fim dos meus dias.

Abaixo, um dos poemas de sua autoria que mais gosto:


No quarto

“Este quarto de enfermo, tão deserto
De tudo, pois nem livro eu já leio
E a própria vida eu a deixei no meio
Como um romance que ficasse aberto...

Que me importa este quarto, em que desperto
Como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! Imensamente perto,
O céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,
Tão perto e tão amigo que parece
Um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
Um céu que pouco a pouco anoitecesse
E a gente nem soubesse que era o fim...”


(Mario Quintana)


H (isso aí)

sábado, 4 de setembro de 2010

Deep in my dark


Se você realmente pretende ler esse post, antes tenha em mente duas coisas:

1) Ele foi escrito num momento de pura raiva e questionável sanidade. Porém, por transmitir 90% daquilo que pretendo, pouquíssimas mudanças posteriores foram feitas;

2) Como ele não cita (abertamente) fatos ou pessoas, quem se sentir ofendido ou retratado em algum momento, tem a liberdade de se sentir "homenageado". Ou não.

Agora pode seguir a leitura.


Revisitar partes tenebrosas do passado não é um dos exercícios mais gratificantes que alguém perto da casa dos 30 anos pode querer para o seu fim de noite.

Pouco mais de quatro anos atrás, numa época em que Orkut era uma febre, o Youtube não passava de uma idéia maluca e Facebook e Twitter ainda nem tinham saído da prancheta, fui marcado por uma dessas bestas-feras que, só porque possuem alguns neurônios a mais e um par de olhos verdes, se achou no direito de me usar como peão no seu já doloroso joguinho de xadrez.

Não posso dizer que “quase” fiquei louco porque, na verdade, eu realmente enlouqueci. Lógico que não como um todo, graças a baixa exposição, mas numa ínfima (porém, importante) parte. Nesses tempos de #InceptionFeelings, tentemos compreender melhor com a seguinte analogia: imaginem um grande cesto com maçãs. Conceitualmente, tenha cada maçã como uma sinapse, uma lembrança, conflito, interação etc. do seu cérebro. Um cesto bem grande, não é verdade?! No caso de uma loira, não deve passar de um pote para sobremesa.. rsrs

Vocês conhecem aquela máxima que diz “uma maçã podre pode contaminar todas as demais”, não é?! No meu caso, ainda seguindo com a lógica proposta anteriormente, trancafiei todas as “estragadas” que consegui coletar numa caixa. Porém, por fazer parte da minha vivência e já que idéias como as de filmes como “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” e “O Pagamento” não passando de ilusões, tive que deixar essa mesma caixa juntamente com as demais maçãs.

A “contaminação” era uma questão de tempo. Mesmo assim, contando com esporádicas ajudas aqui e ali, a tal caixa se tornou cada vez mais um item supérfluo (como muitos outros) da minha mente. Ela simplesmente ficou lá, esquecida, perdendo importância e envelhecendo como todo o meu restante.

Sofri muitos outros reveses na sequência desse citado. Mas nenhum chegou ao ponto de ressuscitar essa vontade quase incontrolável de revisitar tais lembranças como esse mais recente. Provavelmente, por compartilhar ingredientes e situações tão igualmente envolvidos, isso fosse realmente impossível de não acontecer. Mas não improvável de prever.

Pois é, se eu sofro hoje, assim como já sofri antes, o único que pode ser culpado sou eu mesmo. Acabo tomando minhas decisões baseadas em emoções fantasmas, sentimentos estúpidos e assim me fodo por precipitação.

Eu não quero pagar uma de eterna vítima, mas estou farto de ser "perfeito", "bom demais", "tudo", "a melhor foda da minha vida" ou sei lá mais o quê de alguém! Frases e adjetivos quase tão vazios quanto o termo "amigo". Ao mesmo tempo, sinto uma raiva imensa da minha pessoa por me permitir entregar rapidamente e de maneira tão profunda a relacionamentos que não vingam. Dividir particularidades com garotas que (pela minha sanidade mental, prefiro desconhecer os motivos!) não conseguem enxergar uma oportunidade de recomeço nem se esta lhes fosse apresentada em neon piscante!

Entretanto, e como este post já está longo demais para o meu gosto, só consigo chegar a uma conclusão (que nem sei se pode ser tida como tal): tenho pena de pessoas que não o conseguem.


H (Por que é tão difícil?!)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Momento poesia XXXVIII


No fim do caminho*

Cada percalço, uma usura
Todo motivo, uma bagagem.
Antes daqui, nenhuma miragem
Depois de lá, sempre tontura.

Aquilo que vem, parece mais além.
Daquele que vai e some, logo perto.
Do pé-ante-pé trôpego e incerto
Surge a cor, a forma, o desdém.

Se cada descaminho é uma opção,
Então quem pode ter as respostas
Para as perguntas que tanto almejo?

Ninguém. Eis aqui, então, o meu ensejo:
Leve em frente sua trajetória de apostas
Que eu sigo com minha vida de solidão.


(Agamenon Leite)


* Escrita em 31/03/2001

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Prerrogativas de uma morte anunciada¹ - Conto perdido²


Tudo aconteceu tão rápido...

Apesar d’ele saber que era impossível, aquele parecia ser mais um dia como outro qualquer. Nenhuma novidade, nada fora do comum (como se o ‘comum’ fosse algo mensurável).

Mas tudo aconteceu tão rápido... quando se deu conta, já havia sido atingido, forçado a girar nos calcanhares, sendo a queda algo inevitável. Se Newton e Murphy estivessem ali, com certeza estariam apontando o dedo para sua cara enquanto gritavam efusivamente “ninguém escapa das leis, rapaz!”

Estendido sobre o asfalto escaldante, o único calor que sente, porém, é o do líquido viscoso que se esvai pelos seus cortes, impregnando-se em sua pele suada, formando pequenas poças brilhantes de um aroma repulsivo.

Começa a sentir frio.. não aquela sensação gélida relacionada à baixas temperaturas.. não, é uma sensação de vazio, um calafrio persistente percorrendo, vagarosamente, sua espinha de cima a baixo e estagnando em seu estômago.

Deve ser assim que as pessoas se sentem quando estão nessa situação, pensou ele. Um turbilhão de pensamentos fragmentados começou a invadi-lo.

Se esse era seu último instante, se pôs, então, a pensar em quem sentiria a sua falta. Talvez a Laura?! Pouco provável, já que não se viam há mais de 2 anos. E seu círculo de amigos?! Thomas, Marcelo, Eduardo... talvez não de todo. Afinal, como dizia Victor Hugo, eram corajosos sem dúvida... mas fidelidade era algo que sua amizade, provavelmente, não inspiraria numa hora como essa.

E o que seria de seus pais?! Como suportariam passar por isso?! Seu pai, militar aposentado, amargo e ranzinza por experiência de vida, certamente, diria “e o que mais poderia se esperar? Nascido de um acidente, só poderia morrer do mesmo modo”. Sua mãe, reservada por apelido, enlutaria-se por uma semana, choraria uma vez ou outra e logo esqueceria.

Lançou um olhar a sua volta. Na verdade, nem meia-volta. Com uma das bochechas colada ao solo, ficava impossível um ângulo de visão maior que 120º. Diante de tantos rostos desconhecidos, com suas impressões que iam da indiferença a curiosidade mórbida (óbvio!), balbuciou um inocente “me desculpem”, porém, isso só lhe fez recordar dos versos de Chico Buarque, que ele, apenas por não ter nada mais urgente por fazer, começou a murmurar:

E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Logo vieram a mente as lembranças de seu avô.. a velha vitrola onde ouvia Chico Buarque numa repetição exaustiva.. a precária máquina Olivetti, da qual saiam sons quase tão belos quanto dos discos de vinil.. as vezes em que sentava na calçada, junto ao seu avô.. olhos fixos no horizonte e ouvidos atentos as maravilhosas histórias que ele tinha para contar.

De repente, ao longe, ele ouve um sussurro a lhe chamar... seria Deus, ou algum de seus intermediários?! Supostamente, não.. Deus era um luxo para o qual ele nunca se sentiu tentado a dedicar muito do seu tempo. Apreciava, era verdade, toda a mitologia construída a sua volta: céu, inferno, reencarnação, pecados, arrependimentos... mas acreditar, isso era assunto para adultos.

- Ei, Edgar.. Tá tudo bem?! Deixa eu te ajudar a levantar – disse Thomas, seu melhor amigo, estendo-lhe a mão.

- Obrigado... cof, cof...

- Por que você ficou tanto tempo caído? No que estava pensando?

- Nada em especial... apenas nas prerrogativas de uma morte anunciada – exclamou Edgar, averiguando se estava tudo nos devidos lugares.

- Eu sabia! Você e seus pensamentos funestos! Melhor voltarmos ao jogo.. acho que ainda podemos reverter o placar – disse Thomas, se afastando do amigo.

- Funestos?! – indagou Edgar. E, desolado, completou num sussurro - Até a morte idealizada perdeu seu direito de existência.


H (bons tempos)


¹ Qualquer coincidência com o título do livro "Crônicas de uma morte anunciada", de Gabriel Garcia Marquez, acreditem, não é mera...

² Conto escrito, originalmente, em 19 de janeiro de 1999, em homenagem ao 190º aniversário de nascimento do escritor Edgar Allan Poe.


Imagem retirada daqui