sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Top 15 músicas que mais ouvi em 2012


* Apesar dos recentes acontecimentos, julguei primordial a postagem desse texto, que já se encontrava 90% pronto há duas semanas atrás e pela tradição em escrevê-lo sempre nessa mesma época. Numa data oportuna, escreverei sobre tais fatos. Segue o texto:



Como era de se esperar, finalmente chegou o momento de trazer à tona aquela que se tornou a lista mais divertida e aguardada do ano. Talvez porque ela precisa de UM ANO para ser madurada. Me esforcei ao máximo para reduzi-la em 10 músicas, porém foi impossível. Por isso, diferentemente dos anos anteriores, a lista desse ano, conforme diz o título da postagem, inchou-se em 15.

Em 2012, houve gosto para tudo. Ou QUASE tudo. Afinal, sertanejo, forró, axé, samba, pagode e funk, vocês nunca verão por aqui! Sério!! A lista contempla 3 idiomas (ou 4, se considerarmos as ‘menções honrosas’); bandas atuais e cantores de outrora; trilhas de filmes, clipes antigos e performances ao vivo. Todos servindo de inspiração para um ano difícil, alegre e divertido. Em alguns casos, inclui pequenos comentários. Em outros, quando não consegui encontrar uma explicação ou informação relevante pela sua presença na lista, achei melhor deixar apenas o clipe.

Vamos a lista, em ordem decrescente. Ao final, alguns destaques que, entretanto, não conseguiram chegar aos 15 mais, porém, pelo esforço, valem a citação:



15) Grounds for divorce – Elbow




14) C’mon talk – Jarle Bernhoft

Qualquer um que consiga fazer o que ele faz, merece muito o meu respeito.






13) Little numbers – BOY

Em minha defesa: todo mundo precisa de uma música bobinha, para aquelas horas em que a preguiça estende-se até aos pensamentos mais simplórios. Pois bem, aqui está a minha trilha perfeita para esses momentos.. rsrs (Sei que a desculpa não colou, mas fica esta mesmo!)






12) Origins – Tennis






11) Nothing but a good time – Poison

Muito bom quando uma música que fez parte de uma parte bacana da sua vida decide voltar, trazendo consigo boas lembranças de momentos e pessoas. É o caso desta, um dos maiores clássicos do Poison. Os caras eram meio espalhafatosos, mas quem não era em meados da década de 1980?!






10) L’appuntamento – Ornella Vanoni

A música mais bonita que ouvi neste ano. Trata-se de uma tradução para o italiano da famosa canção “Sentado à beira do caminho”, da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Foi gravada no início da década de 1970 pela diva italiana, Ornella Vanoni. Na versão napolitana, toda a sofreguidão da letra fica aquém quando comparada a vivacidade com que é interpretada. Uma sonoridade que te leva a bailar, uma letra que faz chorar o mais duro dos corações.






9) Little talks – Of monsters and me

Uma das grandes surpresas do ano. Banda simples, som simples, porém, dá logo uma vontade de cantar junto e seguir as palmas.






8) Shewolf – Intergalactic Lovers

Para quem se lembra da lista de 2011, deve se lembrar que essa banda já estava lá. ‘Shewolf’ faz parte do mesmo álbum Greetings & Salutations, estreia da banda belga. É uma música ótima para correr, andar de bike ou curtir o tráfego numa rodovia. E, não sei bem porque, me faz lembrar muito aquela cena do Gandalf contra o Balrog. Tentem descobrir por quê.. rsrs






7) Letters from the sky – Civil Twilight

Uma das músicas mais bonitas que ouvi nesse período. Tomei conhecimento dela ao assistir um filme horroroso (que, pelo bem da minha paupérrima honra, não citarei!) com uma amiga. Foi a música ‘depre’ do ano.






6) O’Children – Nick Cave

Não tem muito que falar. Nos 5 primeiros meses desse ano fiz duas “Maratonas Harry Potter” com meus sobrinhos. Gostei da música (que, para quem não sabe, faz parte da trilha desse filme da série) e baixei. O resto foi conseqüência do modo de reprodução ‘aleatória’ do meu celular.






5) Malageña salerosa – Chingon

Uma banda mexicana formada no Texas. Não é tão surpreendente quanto parece. Ainda mais se você levar em conta que ela só foi criada com um propósito: interpretar as trilhas para os filmes de seu idealizador e vocalista, Robert Rodríguez. A única exceção é justamente essa, ‘Malageña salerosa’, gravada para a trilha do filme Kill Bill - v.2, de Quentin Tarantino, um dos grandes entusiastas e fã declarado da banda.






4) Bridge burning / The pretender – Foo Fighters

Repetindo o feito da lista passada, a banda mais roqueira dos últimos anos conseguiu emplacar uma dobradinha na lista. Muito por culpa minha, que não soube qual delas escolher. ‘Brigde burning’ é o ponto de largada do disco mais recente dos caras, Wasting Light. Tem um riff inicial contagiante e vicia antes mesmo do refrão. Já ‘The pretender’ foi o primeiro single do álbum anterior, Echoes, Silence, Patience & Grace. Uma mistura entre o acústico e o eletrônico, o soft e o hard rock. Duas músicas fodásticas.









3) Skyfall – Adele

Posso imaginar a surpresa de vocês ao perceberem tal intérprete nessa lista. Acreditem, eu também! Mas, como tudo aqui tem sua explicação, digo que essa música se tornou rapidamente o maior vício do ano para mim. Desde que foi lançada, não me lembro de ter passado um único dia sem ouvi-lá. Trilha compilada para o 23º filme do agente britânico James Bond, a música consegue tanto resgatar o brio das primeiras canções-tema, quanto seguir um caminho mais conectado com a trama. Simplesmente, depois de ‘You know my name’, do Chris Cornell, ‘Skyfall’ é a melhor trilha que Bond já teve à disposição. Na minha humilde opinião, claro!






2) Nothing to lose - Kiss


Essa banda, ao lado de AC/DC e Rolling Stones, faz parte do meu início no universo musical. Foi uma das canções que mais ouvi no 1º semestre e tem sido uma das minhas preferidas nos últimos 3 meses. Por motivos óbvios.






1) Ropes that way – Dirty Ghosts

Surgiram não sei de onde, chegaram aqui não sei por quê! Brincadeira. O porquê do primeiro lugar eu sei. Uma combinação perfeita entre batida (fui baterista, então não consigo prestar atenção em outra coisa!) e letra. O refrão é pegajoso e, quando menos se percebe, você já o está articulando a torto e a direito. Passei dias e mais dias a base apenas dessa música.






Menções honrosas


* Todo o álbum (homônimo) da banda cearense The Baggios

* Todo o álbum 'Manja Perene' da dupla carioca Letuce

* ‘524’, ‘MR2’ e ‘Luminol’, todas músicas da banda norte-americana Miracles of Modern Science

* ‘’ da dupla paulista Miranda Kassin & Andre Frateschi

* E a fodástica ‘
Doom and Gloom’ dos Stones





H (Até 2013)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Obituário


Sinto falta. Muita falta de como a vida era, 12, talvez 13 anos atrás. Ela não é injusta, como muitos dizem. Possui, na verdade, uma face vil e misteriosa que, para aqueles de pensamento pacatamente inclinado para o lógico e limitado, fica mais fácil e é muito mais reconfortante rotulá-la maldita do que bendizê-la. Nada é culpa, tudo é conseqüência.

Da mesma maneira, a vida também não é cruel. Crueldade é substantiva-la em excesso, como numa tentativa utópica de reescrever a fábula de Pinóquio e Geppetto. Vida deveria ser, frequentemente, mais verbo e adjetivo.

Confesso que é difícil. Extenuante, às vezes. O impossível não é peça de coleção, mas vocábulo de uso desregrado. Até um coração de pedra pode sangrar. Sim, pode.

Você tem o direito de se arrepender de muitas coisas, atos e ações. Contudo, nem meio mundo e três oceanos são obstáculos plausíveis para engavetar-se à comiseração. Acordado também se sonha. Não raro, imperceptivelmente. Tempo é invenção do ser humano, esse animal irracional que, mesmo podendo falar, prefere por inúmeras vezes o silêncio. E se arrepende quando o céu já está estrelado. Distância são grades autoimpostas, amarras invisíveis de uma consciência subconsciente.

Sinto falta do início. O fim, já conheço muito bem. E seu sabor na boca, impregnado entre meus dentes é nauseante. Agridoce.

De herança, aquela que realmente vale, ficaram as imagens. Cenas em um devaneio reprisado. Já desbotadas, esbranquiçadas nas pontas, levemente turvas pelo restante do quadro. Fazer o quê?! O projetor está velho e o restaurador está morto.. por dentro.

E se há algo que se possa contar, que valha a pena ser repassado, é que a vida, esse adjetivo fugaz e lisonjeiro, perdeu um pouco de graça. Seu foco, a partir de agora, minguará em qualidade. O brilho se perdeu, de repente.

E pela segunda vez, minha despedida foi encenada com um objeto inanimado. Sentirei falta das palavras mortas na ponta da língua e dos sentimentos semicerrados. De escrever cartas que nunca serão lidas, ensaiar encontros de reconciliação, temer previamente por tapas que não serão mais deferidos.

A vida, minha vida na verdade, foi outra com você. E será outra sem. Insossa, opaca e assustadoramente previsível. Foi-se a lima que arredondou meus cantos. Entretanto, como diz um ditado italiano, que meu avô repetia sempre, “quem nasce quadrado não morre redondo”.

Vida não é culpa. É consequência. Agora eu sei. Você, sempre soube. Fim.

“A meia distância

Claridade infusa na sombra,
treva implícita na claridade?
Quem ousa dizer o que viu,
se não viu a não ser em sonho?

Mas insones tornamos a vê-lo
e um vago arrepio vara
a mais íntima pele do homem.
A superfície jaz tranqüila.

(Carlos Drummond de Andrade, ‘Como encarar a morte’, 1984)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

æqualis - conclusão da trilogia




* Escrito, originalmente, em 1º de outubro de 2010. Pequenas modificações pontuais foram feitas em 19 de dezembro do mesmo ano e 30 de julho de 2011. Desde então, encontrava-se engavetado.


Como vinha acontecendo nas últimas três semanas, passei pela porta da cafeteria, cumprimentei a garçonete com um breve aceno de cabeça, acreditando que apenas isso já bastasse para que essa compreendesse qual seria meu pedido.

Arrastei as sobras do meu ser até a mesa de todos os dias e tentei ao máximo me acomodar na cadeira mais desconfortável e desalinhada que devo ter topado em toda a minha vida. Poderia simplesmente mudar de lugar, ao invés de ficar me revirando no acento, rangendo mais que os joelhos da minha pobre avó. Ou estar aqui reclamando sobre algo que, aparentemente, não adiciona nada ao relato. Mas o lugar, como vocês devem estar imaginando, era estratégico.

Assim que tomei conhecimento dessa "intromissão" na minha rotina matutina, lá pelo terceiro dia, decidi transformar essa cadeira em meu ponto de observação. E, desse modo, como nos demais 18 dias, sentei-me aqui na esperança, ainda que ínfima, de NÃO vê-la.

Aprendi a sobreviver a todas essas manhãs me adaptando. Após a primeira olhadela lá fora, em direção ao cruzamento, saquei da mochila um livro. Apenas um artifício de distração, é claro! A quem quero enganar?! Finjo lê-lo para que ela não perceba o quão incomodado me sinto com a sua presença.

Como de costume, a garçonete se aproximou com a mesma cara de interesse que, quando pequeno, minha mãe fazia quando recebia um "não quero legumes hoje" como resposta no jantar. "Um capuccino médio, por favor", limitei-me a dizer por trás do livro. Tinha medo de mudar meu pedido e acabar recebendo a xícara "contre ma volonté" nas minhas partes íntimas. Apesar de pequenas, ainda nutro esperanças de ter filhos um dia.

Assim que a garçonete deixou a xícara a minha frente, fechei o livro e esperei. Não rezei porque não fui criado de tal maneira, a jogar a responsabilidade de meus atos e/ou a sorte de fatos futuros na crença de um ser superior. Apenas recostei-me na cadeira e peguei a fumegante bebida entre as mãos. Meu olhar ainda estava perdido no redemoinho de espuma marrom quando senti um arrepio. Ela chegou! Só pode existir uma certeza maior, e está, mesmo com a grande curiosidade mútua, ainda não tive o privilégio de avaliar.

Num movimento que, agora, me pareceu ter levado quase uma hora, recoloquei a xícara em sua posição anterior. Enquanto isso, na esquina em frente, ela aguardava, pacientemente, o semáforo favorável. O sol, radiante em seu esplendor matinal, bateu em retirada, deixando no céu apenas um manto cinza disforme. Sei que não é o mais louvável dos sentimentos, mas lhe invejei pela covardia.

Seu andar era calmo e rítmico, como se fosse minuciosamente ensaiado. Em poucos segundos, ela já estava puxando uma cadeira na mesa em frente, ficando exatamente no meu ponto de fuga. De repente, o jornal que estava acomodado entre suas costelas e seu braço direitos se abriu. Para minha infelicidade, não era grande o bastante para encobri-la.

A garçonete, como num passe de mágica, surgiu ao seu lado. Não ouvi seu pedido. Nem mesmo cheguei a perceber algum movimento de seus músculos faciais que denunciassem a pronuncia de algo. Acabei por me pegar articulando as palavras “um café puro, sem açúcar”.

Como sua presença me incomodava! E eu sei que ela tinha plena consciência disso. Talvez seja esse seu traço o maior responsável pelo meu ódio. Tentei não transparecer. Peguei novamente minha xícara entre as mãos. E como tremiam, essas delatoras! Amaldiçoadas sejam, desde a pele até o interior de cada falange!

Tentei manter o olhar distraído, ocupado em algo distinto. Tarefa difícil, já que éramos, ela e eu, os únicos clientes do café naquela manhã cinzenta. Respirei fundo. Duas, três vezes. Nem Vênus devia possuir um ar tão pesado assim. Atrevi-me a levar a xícara de café à boca novamente. A tremedeira me fez desistir antes do primeiro terço do trajeto.

Voltei ao livro. Abri espaço entre xícara e farelos recentes, e pousei-o na mesa. Enquanto isso, a garçonete voltou com o café puro. Vocês precisavam ver seus modos! Parecia ter passado por uma metamorfose: toda arrogância e falta de apreço deram lugar a um semblante solícito e cheio de pompa. Ah, sua pedante! Aguarde pela surpresa em sua gorjeta!

Inclinei-me sobre o opúsculo, buscando abster ao menos minha visão. Hoje, cheguei a conclusão que poderia ter enviado um ofício ao pessoal do Guinness Book, pedindo minha inclusão no próximo volume sob o título “Menor tempo concentrado numa leitura qualquer”. Minhas costas começaram a ranger antes do primeiro minuto. Logo pensei em concentrar minhas atenções no teto, mas desisti quando considerei o torcicolo que poderia surgir.

Ao voltar para minha posição inicial, pode ter sido apenas minha imaginação, mas juro ter vislumbrado um pequeno sorriso em seus lábios. Vadia! Se divertindo as minhas custas, não é?! Sorte sua não ter sobrado nenhuma migalha de coragem para eu ir até aí e dar-lhe algumas dúzias de sopapos, pensei comigo. Provavelmente, mandando para longe esses óculos escuros de Black Kamen Rider.

A raiva repentina me fez crispar os dedos na mesa. Relaxe e respire. Apesar respire e relaxe. Isso, assim. Acalme-se. Desanuvie sua mente. Pela segunda vez, aquele sorriso zombeteiro! Espero que a sessão de tirinhas do jornal esteja mais engraçada do que meu desespero aqui.

O suor começou a jorrar de minha nuca, percorrendo lentamente, com a ajuda da gravidade, minha espinha como numa corrida com obstáculos. Era hora de jogar minha última ficha: o café. A recente dose de adrenalina parece ter cimentado minhas mãos. Duras como rocha! E sorver o líquido me revigorou. O último gole veio acompanhado de um novo sorrisinho de minha espectadora dissimulada.

Chega! Levantei-me num pulo, decidido a pagar minha conta e dar o fora o mais rápido daquela masmorra. Eis que, para minha surpresa, ela se levantou no mesmo instante. Calmamente, dobrou o jornal a posição original, colocou sua bolsa no ombro, fitou seu café e depois olhou, por detrás dos óculos escuros, bem dentro de meus olhos. Nem preciso dizer o que ela fez antes de se virar e sair.

Como nas últimas três semanas, me aproximei de sua xícara, levantei-a e bebi todo o frio conteúdo de uma só vez. Ah, como era doce o sabor do fracasso! Ao repousar a xícara vazia, reparei num pequeno pedaço de papel dobrado preso logo abaixo. Não sei como ela pôde ter escrito algo durante aqueles longos minutos em que esteve ali, lendo o jornal. Depois de tantos dias nesse mesmo rito, finalmente uma novidade! Desdobrei-o cuidadosamente, como se estive embebido em nitroglicerina. Meus pensamentos foram interrompidos pela voz longínqua e esganiçada da garçonete:

“deseja algo mais?”

“perdão?!”

“perguntei se deseja algo mais”

 Tirei algumas notas do bolso, o suficiente para pagar pelos dois cafés. Coloquei sobre a mesa, exatamente acima do papel que tinha acabado de ler e disse com um sorriso amarelo e um leve tom afetado: “não, obrigado”.

Ao me aproximar da saída, fui sacando meu isqueiro e um cigarro. Estanquei a um passo da calçada, já com o cigarro entre os lábios, ao ouvir a garçonete chamando:

“Moço, moço!”

“Pode ficar com o troco”

“Na verdade, não há troco. Apenas queria lhe perguntar sobre este papel? É seu?”

Vi o famigerado bilhete entre seus dedos gordurosos, apontado contra meu peito. Dei um meio sorriso ao me lembrar da palavra ali escrita, sua caligrafia cuidadosa e prolixa. Voltei meu olhar para a mocinha que, ao perceber meu aceno negativo, afastou-se vagarosamente.

Já na calçada, apreciei o céu que continuava cinzento. Acendi meu cigarro. E segui meu caminho, pensando na infantilidade humana de atirar contra um professor seu próprio ensinamento.


H (embuste!)

sábado, 11 de agosto de 2012

Trilogia "Aconteceu num café" - 2a história



* Quem tiver curiosidade, a primeira história está aqui.


- E então..?

- Então o quê?!

- Qual a sua opinião sobre tudo? Foi você quem me chamou aqui. Disse que tinha algo importante para falar – ele fez uma pausa para saborear o café que tinha acabado de chegar – Julguei que seria sobre isso.

- Pensamento muito sensato o seu. Antes, me responda uma coisa: quantas recusas você consegue suportar? – perguntou ela com um sorriso nervoso entre os lábios.

- Cof, cof.. é, acho que esse pode ser um assunto complexo demais para um mero café! - ele fez menção de chamar novamente o garçom.

- Por favor! Não leve para o lado pessoal. – ela disse enquanto pegava mais um sachê de açúcar – Sejamos adultos, tendo uma conversa igualmente adulta, ok? Agora, responda a pergunta!

- Apenas um número? É isso que você quer?!

- Sim, Ed! – ela não pode demonstrar menos impaciência – Apenas um número. Mas, se for muito difícil para voc...

- Cinco. – interrompeu ele, rispidamente. - Eu acho. Espera.. isso significa que você não gostou?! Não pode ser! Nas outras duas ocasiões você era só elogios para comigo. – E completou, quase aos berros  –  O que mudou?!


Era nítido que ele estava perdendo o controle da situação. Por quê?! Sempre a mesma ladainha. A terceira só naquele ano! Vinte nove anos uma ova! Queria seus nove anos de volta, quando tudo era bem mais simples. E divertido. Sim, muito divertido.


- Ed, será que você consegue refletir em modos a idade que tem? Por favor! – ela olhou para os lados e fez um breve movimento para se levantar, porém deteve-se ao sentir as mãos dele sobre as suas. – Novamente, eu lhe peço: não leve para o lado pessoal, ok? É mais comum do que você imagina. Você é bom.   –  e completou, diante de um leve sinal negativo dele  –  Sério! Engraçado, profundo, afetuoso, dedicado. Mas não é bom o bastante. – fez uma breve pausa e completou já de pé diante dele – Não para nós.

- Tudo bem. Me desculpe pelo descontrole momentâneo. – disse ele enquanto observava a borra de sua xícara – Você pode ao menos me dizer quais meus pontos fracos? No que posso melhorar, sabe?! Para isso não se repetir mais vezes.

- Querido – disse ela da forma mais amorosa possível, voltando a sentar-se. – Vou responder a sua pergunta com uma simples analogia, utilizando exatamente este espaço onde estamos. Você está vendo aquele casal de idosos ali, próximo ao balcão?

- Sim.

- Ótimo. Alguns minutos atrás, assim como fez conosco, o garçom passou por eles para anotar seus pedidos. Como você pode ver, o senhor está tomando café expresso e a senhora, um cappuccino, certo?

- Concordo.

- Agora eu lhe pergunto: qual a diferença entre os dois? O que um cappuccino tem que um café expresso não tem?

- Ah.. sei lá. – ele parou um instante, não apenas para pensar na resposta, mas para imaginar onde essa observação se encaixaria no pedido que havia feito. – O cappuccino, além de café expresso, também leva leite e espuma.. é isso?!

- Exato! – exclamou ela apontando o dedo para a testa do rapaz como uma professora querendo chamar a atenção da sala ao aluno sabichão. – Agora, uma pergunta mais complexa: por que eles fizeram pedidos tão sutilmente diferentes?

- Não sei.. talvez porque eles sejam pessoas diferentes?!

- Novamente correto, querido.

- Está bem. Mas o que isso tem a ver com a pergunta que lhe fiz antes?

- Cada pessoa tem um gosto, Ed. Um dia, você encontrará alguém que leia o seu trabalho e visualize o café expresso que sempre buscou. Simples assim. – disse ela, abrindo um sorriso sincero – Agora preciso ir. Boa sorte com o livro, querido.


H (ainda há esperança!)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A fonte dos desejos

Imagem meramente ilustrativa



Quando eu era mais novo (mais de idade do que de estatura), minha mãe dividia seu tempo entre os afazeres da casa, os cuidados com os filhos e marido e seu principal hobby: a costura.

Como, para facilitar seu trabalho, minha irmã e eu estudávamos em horários diferentes, ela sempre me arrastava em suas viagens homéricas, em busca de tecidos, botões e demais apetrechos necessários.

Quase sempre aceitei de bom grado tal tarefa. Claro que tinha em mente o lado especulativo que essa empreitada possibilitava. Era, salvo raríssimas exceções como aniversários, eleições e visitas a parentes distantes, de aproveitar o bom humor e a grande disposição da minha mãe para “exigir” algo em troca da minha prestativa função como filho. Nada muito elaborado e/ou expansivo. Geralmente, uma guloseima ou salgado.

Porém, uma das minhas exigências favoritas não passava nem perto da ala gastronômica.

Uma das lojas que minha mãe visitava com maior freqüência ficava no bairro da Lapa. Defronte a supracitada estava um Grupamento do Corpo de Bombeiros. E, na entrada deste, ficava uma pequena fonte com peixes japoneses dos mais coloridos. No fundo, um tapete de pequeninos objetos metálicos, em forma de brilhantes moedas.

Diferentemente de outros casos, nesta loja, fazia questão de esperar minha mãe na porta. Ela, provavelmente com medo de que eu aturdisse como um louco até o outro lado da rua, lançava um olhar risonho à fonte, voltava-se para mim, passava a mão em minha cabeça e dizia: “volto já”.

E lá ficava eu, estancado. O olhar fixo e um desejo crescente, maior do que qualquer número que eu conhecia àquela época.

Difícil explicar quais eram meus sentimentos ao ficar ali parado. Tudo para mim era digno de admiração. Até as pedras que adornavam a fonte eram especiais. Lembro que numa das primeiras vezes que fomos até ela, perguntei a minha mãe porque as pessoas jogam moedas aos peixes ao invés de comida. Minha genitora, que nunca foi dada a vislumbres ficcionais, disse-me algo que, mesmo sem saber, transformou aquele lugar no ponto conflitante entre minha realidade e minha imaginação: aquela era uma fonte dos desejos!

Infelizmente, com o passar do tempo e o assombro das responsabilidades acumuladas, tendemos a substituir esse aspecto quixotesco da infância.

Ontem à noite, após quase 20 anos, passei novamente pela tal fonte. Tinha o caminhar apressado e fôlego quase nulo. A última condução para meu merecido descanso sairia em poucos minutos.

Não sei bem se foi a tranqüilidade do horário ou minha felicidade pelo dia exaustivo que tive, mas retrocedi alguns passos. Tal como Narciso, admirei meu reflexo, sombrio e desbotado de luz artificial, antes mesmo de passar os olhos pelo entorno.

Tão saudoso quanto Casimiro de Abreu, lembrei-me daquelas manhãs gélidas e fugazes. Abri um pequeno sorriso, agradeci e me afastei, sentindo-me renovado.


H (Novo.. denovo)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

29


Não, eu não morri. Ainda!

Depois de quase três meses de ausência, volto decidido a dar cabo dessa procrastinação. Mas esse não é o assunto, ao menos por agora.

Daqui pouco mais de 23 horas, comemoro uma idade, para mim, considerada um divisor de águas. Talvez pela própria situação pessoal em que me encontro, não tenho muito que comemorar nesses últimos 366 dias, já que estamos em ano bissexto.

Há exceções, claro! Finalmente consegui me livrar das amarras de um trabalho estressante, principalmente pelo fato de ter uma chefia tirana nipônica que sente um prazer próximo do sexual ao ver sua equipe totalmente engessada, além de promover, nitidamente, um favorecimento de gênero. Seguir uma carreira autônoma foi um risco e, agora, estou sentindo os reflexos de tal risco. Porém, não voltaria atrás.

Conheci pessoas das quais me sinto cada vez mais semelhante. Pessoas que me acrescentaram visões e conhecimento ímpares, sobre inúmeros aspectos.

Adquiri uma visão acadêmica mais “panorâmica”, criando coragem até para participar ativamente de eventos da área. Área da qual não gosto, mas escolhi, pelo bem de ambas as partes, conviver. Não temos uma relação de “ídolo e fã”. Apenas nutrimos um respeito mútuo.

Finalizei projetos e acumulei outros. Devo lançar meu tão sonhado livro até o fim do ano, ajudei a criar outros dois blogs e me senti a vontade até para voltar a me aventurar na área musical.

Bom, mas para finalizar, um pouco de descontração: duas semanas atrás, durante uma das longas ligações telefônicas madrugada adentro, a Rebecca me pergunta “qual será seu pedido quando apagar tantas velinhas?”. Fui sincero e disse que adoraria ter 10 anos menos. “Agora que você me contou, não poderá fazer esse, seu burro!”. Cai na gargalhada, relembrando a época em que ainda acreditava nessas crendices infantis. Soltei um sonoro “filha da puta” e desliguei, desejando nunca ter me aventurado nessa saga de vida adulta. Contudo, Peter Pan também não passa de outra fantasia infantil.

Enfim, Feliz Aniversário, Agamenon!


H (ladeira abaixo)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Limen Vitae

Trecho de diálogo ocorrido em 17 de dezembro, num café na região da Av. Paulista:


- E então..?

- Então o quê?!

- O que você queria me falar? Foi você quem me chamou aqui, não foi? Disse que tinha algo importante para dizer – ela fez uma pausa para saborear o café que tinha acabado de chegar.

- Eu acho que cheguei naquele ponto – disse ele enquanto apreciava a rotina alheia pela janela – Aquele ponto que
ele tanto comentava..

- Limen vitae* – completou ela.


Ele não confirmou, mas ela sabia que estava certa. O movimento rápido do pomo-de-Adão e o suspiro prolongado após a pronuncia dessas palavras só veio corroborar. Ela era uma ótima observadora. Não gostava de se gabar, é verdade. Mas estava ciente de que os outros também a julgavam como tal.


- Você se lembra como
ele era?

- Altura mediana, bonito, um tanto arrogante quando versava sobre um assunto de seu domínio. Autodestrutivo, às vezes. Uma pessoa acima da média.

- Não estou falando física ou psicologicamente. Perguntei se você se lembra como era
estar na presença dele.

- Ah, isso.. – ela parou para pensar um pouco – Eu, particularmente, me sentia estranha. De uma maneira boa, claro!
Ele tinha um magnetismo e uma atitude que me fazia sentir capaz de tudo. Como uma super-heroína, sabe?!

- Sei.. comigo era a mesma coisa.


Os dois ficaram um minuto em silêncio. Ele observava, distraidamente, o movimento matutino fora do café. Evitou encará-la não por medo, mas por saber da capacidade que essa tinha em ler no olhar das pessoas qualquer indício de intempérie emocional. Ela, por sua vez, enquanto formulava algo apropriado para dizer, resolveu brincar com os pequenos farelos do pão que havia comido minutos atrás.


- Olha, eu sei que algo está lhe preocupando. E até sou capaz de imaginar o que seja. – ela o encarou por um longo instante – Mas antes vou lhe dizer uma coisa: você não chegou ao tal ponto...

- Como você pode ter tanta certeza dis... ?

- Por favor – ela elevou a mão espalmada em sua direção – não me interrompa novamente, ou vou lhe dar um tapa aqui mesmo! Conheço você há mais de 12 anos.. e
ele, antes mesmo de você conhecê-lo. Acho que isso basta como resposta. – disse, apontando o dedo em riste – Nem você nem ele chegaram ao tal Limen Vitae. Se ele lhe explicou bem, Limen Vitae é um estado de espírito em que a pessoa não se sente ligada a ninguém, permanecendo isolada emocionalmente de qualquer outro ser vivo com quem mantinha relações. Sem lembranças, sem remorsos, sem sentimentos. Um completo vegetal.

- Eu sei disso – defendeu-se – E é assim que me sinto agora.

- Não! Não e não! E vou provar:
ele, em algum momento, lhe tratou como um estranho? Deixou de lhe ajudar ou se importar com você? Não! – ela se antecipou com um soco na mesa – Da mesma forma, você sempre teve a mim. Apesar da distância, é claro, mas nunca deixou de atender minhas ligações, responder minhas cartas e se importar com meus problemas..

- Acho que você não me entend... – o barulho do tapa abafou o restante da palavra.

- Não diga que eu não avisei, querido. Eu ainda não acabei! A burrada que aquela outra fez a você foi horrível e imperdoável. Ponto. Mas não use a atitude dela como um esconderijo, por favor. Você não é tão frio quanto julga ser. Você é uma pessoa que se apaixona facilmente. Só isso.

- Era – disse ele com o rosto entre as mãos, prevenindo-se da possibilidade de outro tapa.

- Olhe para mim, cabeçudo! – pediu duramente – Não para o meu decote, nem para a minha testa! Olhe aqui, nos meus olhos. O que lhe aflinge? Me diz o nome desse incômodo.

- Não é incômodo, Beka. É só medo, eu acho. – continuou, depois de uma pequena pausa - Eu gosto dela. Muito. Mas sinto que ainda estou apaixonado pela outra..

- Você sempre foi assim, né? Não consegue se desprender totalmente de alguém, mesmo quando a decisão pelo fim cabe a você. – ela soltou um longo suspiro – Preste atenção, porque não vou repetir: você não está apaixonado pela outra. Você está alimentando uma fantasia! Vocês dois não são mais os mesmos. – envolveu as mãos dele entre as suas – Siga sua vida, querido! Não viva de ilusões e desejos fictícios. Apenas.. – parou para pensar melhor numa conclusão – viva, ok? Deixe as coisas acontecerem, sem planejamento prévio.

- Ok. Vou tentar.

- Promete?

- Só se você me contar como está seu casamento – disse ele, já abrindo um sorriso.

- Ah, vai se foder! – e afastou as mãos dele para longe enquanto os dois caiam no riso.


* Limen Vitae era um conceito defendido por essa pessoa. Depois de assistir “No limiar da vida” (Nära Livet), do diretor Ingmar Bergmar, e combinar com algumas leituras suas de Platão e Socrátes, ele formulou uma ‘tese’ de que, em algum momento de nossas vidas voltamos ao princípio emocional de desligamento e solidão, como nos poucos instantes entre o corte do cordão umbilical e o primeiro contato entre mãe e filho, ao acontecer novamente, em idade adulta.


H (decisão)

Imagem retirada daqui

sábado, 28 de janeiro de 2012

Oscar 2012 - Curtas


Na última terça-feira, foi dada a largada para o maior evento cinematográfico do ano. Algo fútil para a grande maioria dos mortais, cult para os novos intelectuais. Porém, para uma seleta porção, os cinéfilos, é quase como um feriado.

Mas devo confessar que, de alguns anos para cá, assisto apenas pelo prazer de acertar as apostas. Bom, tudo ao seu tempo. Hoje, falarei e mostrarei os 5 escolhidos ao prêmio de uma das minhas categorias favoritas: Melhor Curta de Animação. Vamos a eles:


Dimanche (Domingo)
Direção: Patrick Doyon
Canadá – 10min

Um dos candidatos do Canadá (mais precisamente, do lado francês do país), Dimanche conta a história de um garoto entediado durante uma reunião de adultos que resolve colocar uma moeda no trilho do trem para ver o que acontece. Um estilo bem rústico e simplório, lembrando desenhos da década de 1940.




The Fantastic Flying Books of Mister Morris Lessmore (Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore)
Direção: William Joyce e Brandon Oldenburg
Estados Unidos – 15min

Baseado na tragédia do furacão Katrina e na história do Mágico do Oz, entre outras, é o curta mais sensível dos cinco. Um relato alegórico sobre os poderes de cura que os livros possuem. De longe, é meu favorito ao prêmio.




La Luna (A lua)
Direção: Enrico Casarosa
Estados Unidos

Não há muito o que dizer. É mais uma das produções da Pixar. Acredita-se que será lançado juntamente com o filme "Valente", longa de animação da produtora que estreia em junho.

Segundo sinopse oficial, "La Luna é a fábula atemporal de um jovem que está envelhecendo nas circunstâncias mais peculiares. Esta noite será a primeira vez que seu pai e seu avô o levam junto ao trabalho. Em um velho barco de madeira, eles partem para o mar e, com nenhuma terra à vista, param e esperam. Uma grande surpresa espera o garoto quando ele descobrir o método de trabalho nada convencional de sua família".




A Morning Stroll (Um passeio matinal)
Direção: Grant Orchand
Estados Unidos

Assim como o candidato da Pixar, sabe-se pouquíssimo sobre a história desse curta produzido pelo Studio AKA. Foi escolhido como melhor curta de animação pelo júri do Festival de Sundance, em 2011.




Wild Life (Vida selvagem)
Direção: Amanda Forbis e Wendy Tilby
Canadá – 13min

O outro candidato do Canadá (dessa vez, do lado inglês), conta a trajetória de um londrino vivendo num rancho em Alberta, no Canadá. O curta chega a parecer uma sobreposição de telas, tamanha perfeição dos traços e movimentos.




É isso. Na próxima semana, tentarei finalizar minha lista de apostas para as 8 principais categorias do Oscar®.


H (animado)