segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Guia de sobrevivência ao primeiro encontro - 1a parte



Antes de mais nada, quero deixar claro que não sou machista. Apesar das minhas indiretas sobre esse assunto serem tão constantes quanto o tic-tac de um relógio cuco, admiro muito o espaço conquistado pelo sexo feminino no decorrer dos últimos 90 anos.

Dito isso, preciso ainda esclarecer que esse post é direcionado, quase que exclusivamente, para o público masculino que convive “nesse mundo” (que, para minha sorte, não passa de meia dúzia!). Pois é garotas, se, ao lerem o título desse post, vocês imaginaram que eu iria entregar de bandeja os grandes macetes sobre os pensamentos e atitudes do universo masculino antes, durante e, principalmente, depois do primeiro encontro, desculpem-me, mas vocês estão enganadas! Começa aqui o (meu) primeiro e único “Guia (masculino) de sobrevivência ao primeiro encontro”.

Antes, porém, elucidemos alguns pontos: 1) nossa “vítima” (a garota) tem entre 21 e 25 anos; estuda e trabalha; mora com os pais e animal de estimação (escolha livre!); é uma pessoa antenada, simples e, aparentemente, não pertence a nenhum socio-grupo estranho e/ou irritante (sem exemplos!); 2) apesar do termo utilizado, as dicas aqui expostas visam apenas uma coisa: atravessar o caminho de brasas do primeiro encontro e garantir um próximo; assim sendo, se a sua intenção é única e puramente sexual, get out!; 3) não tenham tudo aqui dito como via de regra. Afinal, quando o assunto é mulher, ou melhor, comportamento e conquista do sexo oposto, tudo se torna uma monografia.. sem conclusão!; 4) as dicas serão separadas em grandes categorias e, provavelmente, pelo tamanho que o post tomará, serão divididas em 2 posts.

Logo, como vocês puderam notar, esse é apenas um post pseudo-científico: veio para tudo dizer e nada informar. Aguardem os próximos episódios...


H (sendo mais eu)

sábado, 28 de novembro de 2009

Auto-história: a caixinha de fósforo mais famosa do mundo



Alexander Arnold Constantine Issigonis foi, sem dúvida, um homem marcante na indústria automobilística britânica e mundial. Alec começou a tomar gosto pelos automóveis em 1923, quando adquiriu um da marca Singer. Pouco depois começou seus estudos no Battersea Polytechnic e diplomou-se engenheiro em 1928. Era um ótimo desenhista e projetista.

Em 1936, depois de passar por várias pequenas montadoras, começou a trabalhar para a Morris. Juntamente com Jack Daniels, que havia trabalhado na MG, montou o departamento de desenvolvimento da empresa. Um imaginava, o outro calculava. E foi nesse ínterim que ambos começaram a se dedicar ao projeto “Mosquito”. Seria um novo carro pequeno, moderno e acessível. Em 1943, a carroceria do primeiro protótipo ganhava vida. Estava nascendo o primeiro sucesso deste homem genial. Em 1948, era lançado o Morris Minor, que se tornaria um sucesso comercial até o início da década de 1970, em diversas versões.

Quatro anos depois, com a fusão da Morris com a Austin (formando a BMC), Alec perdeu autonomia e resolveu se retirar do grupo. Com a primeira crise do petróleo, em 1957, Alec, que havia saído a pouco tempo da Alvis, foi convidado a voltar para a BMC. O desafio era projetar um carro ainda menor e, conseqüentemente, mais econômico, porém, que garantisse conforto no transporte de 4 pessoas.

Desenhado em tempo recorde, entre março e outubro de 1957, o carro teve dois protótipos construídos. Em julho de 1958, Alec convidou Leonard Lord, diretor da BMC, para testá-lo. Sir Lord, entusiasmado, mandou que o carro estivesse em produção em menos de um ano. O nome oficial escolhido foi ADO-15, de Austin Drawing Office. Para o público, em abril de 1959, eram apresentados o Austin Seven, fabricado em Longbridge, e o Morris Mini Minor, produzido na unidade de Cowley, nos subúrbios de Oxford.



Essa hilária divisão logo ficou conhecida pelo apelido de Mini. Tinha 3,05 metros de comprimento, distância entre eixos de 2,03 m, largura de 1,41 m e altura de 1,35 m. Era quadradinho e muito leve: 570 kg. Apesar das pequenas dimensões externas, seu interior era generoso em espaço. O tanque de gasolina, com capacidade de 25 litros, garantia ótima autonomia, já que podia fazer até 20 km/l. Estava disponível nas versões Basic e Super Deluxe, esta com calotas e alguns cromados a mais. A carroceria monobloco tinha duas portas, que exibiam as dobradiças na parte da frente. Uns achavam muito rústico o recurso, outros entendiam que combinava e mostrava charme. Na frente havia dois faróis circulares e uma grade cromada, com frisos horizontais e barretes verticais.

O carrinho possuía duas curiosidades que o faziam ainda mais exclusivo: a primeira era o motor. Diferentemente de todo e qualquer carro da época, ele era montado em posição transversal (leste/oeste). Tinha cilindrada de 848 cm³, quatro cilindros em linha e potência de 30 cv, chegando à máxima de 115 km/h; a segunda se refere a suspensão. Era independente nas quatro rodas e usava batentes de borracha como meio elástico, em vez de molas e amortecedores, pois a borracha tem elevada histerese (anula os movimentos de compressão e distensão). Isso visava mais a estabilidade de que o conforto na sua condução.

Apesar disso, as vendas só deslancharam depois que foi visto como carro preferido por famosos como a princesa Margareth (irmã mais nova da rainha Elisabeth II) e o ator Peter Sellers.

Em 1961, após uma parceria com a Cooper Car Company, surgia uma versão mais potente, que seria responsável pela alcunha que o deixaria conhecido no mundo todo: o Mini-Cooper. O motor passava a ter 998 cm³, potência de 54 cv e velocidade final de 145 km/h. Dois anos depois, foi lançada uma versão apimentada desse, chamada de Cooper S. Produzida até 1972, essa versão chegou a ter um motor com 78 cv e velocidade máxima de 170 km/h.

Porém, antes disso, em 1969, o grupo BMC se fundia ao Leyland, formando a British Leyland Corporation. A partir daí, surge a política de redução de gastos. Logo, a fábrica de Cowley (Oxford), que pertencia a Morris, fecha as portas. Assim, não havendo mais distinção entre Austin e Morris, o carro passava a se chamar apenas Mini 850 ou 1000 (referências as cilindradas do motor).



A partir de 1977, e nos 15 anos seguintes, começaram a ser lançadas as série limitadas, quase todas com nomes de bairros londrinos: Beaubourg, Mayfair, Chelsea, Ritz, Piccadilly, Park Lane, Red Hot, entre outras. Até a versão Cooper retornou, rebatizada como Monte-Carlo.

Depois de passar por inúmeras crises internas e pelas mãos de montadoras como BMW e Land Rover, o Mini-Cooper deixava de ser produzido, em outubro de 2000, com um total de quase 5,4 milhões de unidades fabricadas. Antes mesmo de ter sua produção encerrada, em 1997, a BMW já ensaiava uma repaginação total do Mini. A tentativa era deixá-lo mais robusto e moderno. O projeto final foi apresentado ao público no Salão de Paris de 2000, quase simultaneamente ao anúncio do grupo Phoenix (detentor dos direitos sobre o carrinho até então) do encerramento da sua produção.

As críticas (favoráveis, em sua maioria) ajudaram a BMW a trazê-lo de volta às ruas. Desagradando aos puristas por ser maior e mais pesado. Porém, seus fãs ainda enxergam nele o espírito Mini original.

Para os cinéfilos, quatro “Mini-dicas” (trocadilho ridículo, eu sei!): “Um Golpe a Italiana” (1969), com Michael Caine, onde os Mini-Coopers fazem verdadeiros malabarismos para escapar da polícia de Turim; sua continuação, “Uma Saída de Mestre” (2003), com Mark Wahlberg, Donald Sutherland e Charlize Theron, conta com a participação de um Mini da segunda geração e três da versão mais recente; em “A Identidade Bourne” (2002), com Matt Damon e Franka Potente, um Mini vermelho bem surrado é usado pelos protagonistas numa longa viagem entre Alemanha e França; e, não poderia deixar de citar o seriado “Mr. Bean”, com o ator Rowan Atkinson no papel do esquisito e atrapalhado monossilábico britânico que possui um ursinho de pelúcia e um Mini verde com uma tranca na porta.


H (um sonho)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O jogo do cachorro


Será que ele consegue?!

Deixando um pouco de lado as minhas obrigações acadêmicas e me entregando um pouco menos a irresistível e deliciosa soneca que me entorpece logo pela manhã, comecei a pensar (nem sei bem porquê!) em algo que me ronda de alguns anos para cá.

Às vezes, sinto-me um verdadeiro anormal por perceber que ainda tenho apreço por certas pessoas que passaram pela minha vida sem, por outro lado, serem parte ativa dela. Indivíduos que me decepcionaram e/ou magoaram, já que sou um ser muito rancoroso (merecerá um post em breve!). Ou ainda, numa terceira hipótese, apesar de pouco usual, indivíduos que seguiram rumos diferentes dos meus.

Pode parecer que estou falando exclusivamente das minhas “bad choices”. Mas não. Muitas das minhas amizades também seguem por essa mesma trilha.

E, como eu disse anteriormente, é estranho perceber que mesmo não havendo mais qualquer tipo de laço, de relação interativa, essas pessoas ainda me são tidas como especial, quando não, muito importantes.

Em alguns casos, que infelizmente não poderei citar exemplos, teria motivos mais do que cabíveis para ignorá-los e gritar a plenos pulmões: “burn in hell”. Porém, acho que pela minha natureza pacificadora e isenta de sentimento de vingança, não consigo ignorá-las de todo.

Ultimamente, vejo alguns aspectos da minha vivência terrena como pequenos círculos viciosos, uma corrida oval, onde fim e começo alternam suas ordens, porém, mantendo suas origens. Apesar de distintos, possuem aparência de univitelinos.

Pode parecer fácil ou até agradável experimentar a vida dessa forma. Contudo, eu garanto que não é. Pelo menos na maioria das vezes, ter segundas, terceiras ou infinitas chances só permitem que os erros, ao invés de serem corrigidos, sejam reprisados... quando não, piorados.


H (sendo coadjuvante da minha própria vida)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Diretores - Frank Capra



Apenas os audazes deveriam fazer filmes, porque apenas os que têm força moral podem falar às pessoas durante duas horas e na escuridão.” [F. C.]

Nascido como Francesco Rosario Capra, em 18 de maio de 1897, no vilarejo de Bisacquino, Itália, era o sexto filho de um casal de camponeses. No ano seguinte, seu irmão mais velho, Ben, já na casa dos 16 anos, sai da Itália em busca de novos desafios. A família Capra fica sem notícias suas até que, em abril de 1903, recebem uma carta de Ben, dizendo que estava em Los Angeles, Estados Unidos. O pai, Salvatore, resolve então partir com toda a família para a Califórnia.

Frank, com seis anos, passou a estudar e vender jornais na rua para ajudar na renda da família. Durante os estudos, Frank ainda trabalhou como bedel em sua escola, tocador de banjo em um bistrô e encartador no Los Angeles Times. Em 1918, formou-se em engenharia química. Mas não conseguiu emprego em sua profissão e, depois de vagar pelo estado em diversas ocupações, soube que o Ginásio Israelita do Golden Gate Park, em San Francisco, seria transformado em um estúdio cinematográfico. Ele começou como técnico de um pequeno laboratório, para depois tornar-se roteirista de comédias para os dois maiores produtores do gênero: Hal Roach e Mack Sennett.

Seu contato com os dois possibilitou que, anos depois, ele fosse contatado por Mack Sennett para trabalhar com um comediante que então despontava: Harry Langdon. Nessa época, Frank co-escreveu e dirigiu, entre outros, ‘’O Homem Forte’’ (1926), considerado o melhor filme de Langdon. Porém, logo foi despedido pelo comediante, temeroso que o talento do jovem cineasta ofuscasse o seu.

No final da década de 1920, Harry Cohn, um dos donos da então desconhecida Columbia Pictures, escolheu o nome de Capra em uma lista de diretores desempregados apenas por intuição, esse sendo considerado o ponto inicial da sua estupenda carreira. Seus primeiros anos na produtora foram marcados por impulsionar a carreira da atriz Barbara Stanwyck, e pelo início da associação com Robert Riskin, roteirista por trás de alguns dos maiores clássicos do cineasta.

Sua temática recorrente era uma combinação de comédia e drama; a exaltação ao homem comum, cujo bom caráter prevalece sobre a corrupção e as armadilhas do sistema. Essas fábulas populistas, confiantes na democracia dos Estados Unidos, eram particularmente eficientes para a sociedade americana dos anos 30 e 40, abalada pela Grande Depressão e pela guerra.

Após a Segunda Guerra, Capra fundou a Liberty Films, juntamente com os diretores William Wyler e George Stevens, e o produtor Samuel Briskin. Apesar de contar com dinheiro da poderosa (na época) MGM nos seus primeiros anos, a promissora produtora não durou muito: em 1950, depois de fracassos de bilheteria como “A Felicidade Não se Compra” e “Sua Esposa e o Mundo”, ela foi vendida para a Paramount.

Na década de 1950, já deixando a sétima arte um pouco de lado, Frank Capra também se dedicou a televisão, produzindo alguns programas científicos. Seu último filme (na verdade, uma refilmagem), “Dama por um dia”, foi lançado em 1961. Em 1971, publicou sua autobiografia (“The Name Above the Title’’) e, em 1982, recebeu do Instituto Americano de Cinema um de seus três prêmios pela carreira, cujos melhores filmes são “obras-primas de timing e organização’’, como descreveu o crítico Leslie Halliwell.

Alguns vêem Capra como um cineasta de filosofia simplista e otimismo ingênuo, mas criticá-lo por tais motivos é negar uma das próprias razões de ser do cinema (e de qualquer cinéfilo, diga-se de passagem). E quando se fala em divertimento (e por que não, esperança), ele tem poucos paralelos. Seus filmes permanecem entre os maiores entretenimentos da história da sétima arte.

Responsável pelo primeiro filme a ganhar os 5 principais prêmios do Oscar® (Filme, Diretor, Roteiro, Ator e Atriz), “Aconteceu Naquela Noite”, de 1934 (os outros dois foram “Um Estranho no Ninho”, de 1975, e “O Silêncio dos Inocentes”, de 1991), e vencedor de 3 prêmios como Melhor Diretor, Frank Capra faleceu em 3 de setembro de 1991, de ataque cardíaco enquanto dormia.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:

* Aconteceu Naquela Noite (1934)
* O Galante Mr. Deeds (1936)
* Do Mundo Nada se Leva (1938)
* A Mulher Faz o Homem (1939)
* Adorável Vagabundo (1941)
* A Felicidade Não se Compra (1946)


H (“Um pressentimento é a criatividade tentando lhe dizer algo.” [F. C.])

sábado, 21 de novembro de 2009

Um esconderijo para o preconceito

"Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. [...] Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição." (Declaração Universal dos Direitos Humanos, Artigos 1 e 2).

Alguns meses atrás, iniciei uma saga, tendo como conclusão o ato de assistir "in loco" (no cinema) a todos os filmes que estavam concorrendo a premiação do Oscar® desse corrente ano. Infelizmente, por um punhado de motivos, fracassei no meu intento. Porém, como a maioria já se encontra disponível em dvd, resolvi retomar a conclusão de tal lista.

Contudo, antes disso, mudemos um pouco o rumo do post: ontem, como todos bem sabem, foi o dia da Consciência Negra. Muito além do que mais um feriado no nosso já entupido calendário, essa data foi escolhida para (assim como fica nítido na sua intitulação) conscientizar e lembrar a todos desse país branquelo que as raízes negras encontram-se espalhadas pelos vários estratos sociais. Há pouco mais de 300 anos atrás, nessa mesma data, morreu um dos maiores "ativistas" pelo fim da escravidão que, por sua vez, juntamente com o holocausto, forma a moeda mais alta do preconceito mundial.

Mas por que os seres que se dizem humanos, em inúmeras oportunidades, sentem essa necessidade de se intitularem melhores (ou superiores) do que aqueles que até pouco tempo eram seus semelhantes? Chegando a vias de subjugá-los, criando estereótipos malditos para auxiliar a mistificar o preconceito que se estabelece a partir daí.

Como diria "V" no filme "V de Vingança": "uma ideia é mais forte que uma pessoa". Basta espalhar uma mentira mil vez para ela se tornar uma verdade incontestável. Vejam o caso dos negros logo após a abolição: viviam pelas ruas, sem conseguir um trabalho minimamente decente. O que era dito na época sobre isso?! Chamavam-os de vagabundos! E vejam hoje: 150 anos depois e a fala permanece quase intacta. Ou o grupo racista Ku Klux Klan com a sua corrida pelo extermínio de todos esses.

E foi assim com os homossexuais, quando foram tachados como disseminadores do vírus HIV; Os comunistas e a fama de "comedores de criancinhas"!; Os islâmicos generalizados como extremistas fervorosos, prontos para explodir o planeta; O nazismo e sua ideia estúpida de supremacia ariana e limpeza étnica... e por aí vai.

Mas, por quê?! Talvez seja uma pergunta sem resposta convincente... talvez uma resposta que não mereça estar embutida a uma pergunta.. sei lá!

Só sei que depois de assistir a filmes como "Milk: a voz da igualdade", "Mississipi em chamas" e "O Pianista" nesses últimos dias, comecei a rever o lugar onde eu escondo o meu preconceito. Resolvi fazer uma faxina geral nos meus conceitos pré-concebidos.


H (indico o mesmo para vocês)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A perda da inocência - post convidado



Minha mãe sempre me dizia que o mais surpreendente dos seres humanos somos nós mesmos. Maria como 90% das mulheres da mesma faixa etária, tinha uma vitalidade e paz de espírito de dar inveja a qualquer monge budista.

Ela e meu pai se casaram ainda numa época em que a escolha cabia aos pais da moça. Mas ela teve sorte, segundo ela própria me disse certa vez: “logo que pus os olhos no seu pai, sabia que ele era para toda a minha vida”.

Juntos, eles tiveram três filhos. Como toda adolescente que se preze, dei tanto trabalho para os dois (meus pais), que fugi de casa quando fiz 16 anos.

Nunca liguei para os seus ensinamentos. Tudo que saía da boca deles, para mim, soavam como broncas e sermões.

Porém, mesmo estando longe, mandava uma carta por trimestre, só para dar notícias. Provavelmente, repensando hoje, o fazia por um remorso estúpido, do tipo que magnetiza ao ponto de garantir saudade o bastante para não eu atravessar a fronteira da volta para casa. Ficava ali, estagnada na vontade. Eles, talvez prevendo que o mundo iria me “endireitar”mais cedo ou mais tarde, nunca me pediram para retornar.

E eu não vou dizer que ele (o mundo) conseguiu. Muito pelo contrário! Ele me permitiu ser aquilo que tinha vontade, voar até onde as minhas asas me sustentassem. Ele me garantiu a subsistência de lucidez que, tenho certeza, a proteção familiar nunca nutriria.

De mãos dadas com o mundo, experimentei um pedaço de cada sentimento; cada sofrimento; cada indivíduo que cruzou meu espaço. Aprendi a amar o hoje e respeitar a liberdade. Passei por tantos lugares que deixaria Gengis Khan no chinelo.

E, depois de 7 anos distante da lagoa onde fui gerada, retornei para aquilo que nunca me pertenceu. Não fui recebida com toda a pompa de chefe de Estado, mas com um carinho que me surpreendeu. Havia saído tal como um anticristo e voltei como uma canonizada. E, pela primeira vez na vida, senti vontade de ficar, de ter um lugar para chamar de meu e moldá-lo “à minha imagem e semelhança”.

Porém, não demorou muito para a realidade dar o ar de sua graça, esbofeteando minha face, avisando que a fantasia só faria mal a minha vida.

Saí novamente, carregando comigo o ensinamento de que o lado ruim da vida não é provar da existência da maldade, mas alegar desconhecer sua abrangência, sua totalidade, nas mais variadas formas.

BeKa Ruiz

terça-feira, 17 de novembro de 2009

As primeiras pedras e o roteiro de viagem



Seguir rumo ao desconhecido pode desestimular ou amedrontar os mais pessimistas. Por outro lado, pode empolgar e revitalizar os mais céticos.

Depois de se encontrar diante do breu de um túnel, caminhar por trilhas estreitas e sinuosas, escalar pedras gigantes surgidas do “nada” e avistar a primeira placa de localização, anunciando a distância exata até o destino final, é chegada a hora de sentar-se a beira do caminho para tomar fôlego.

Um terço do trajeto foi completado”, ouço ao longe uma voz de tom ameno, como que trazida pela brisa de um fim de tarde. “Mas ainda falta muito até o fim”, diz a mesma voz. Olho ao redor, procurando um rosto conhecido, ou pelo menos um que assim possa ser intitulado. Porém, em vão. Apesar de não me sentir assim, estou só. Somente minha bagagem me faz companhia física.

De repente, não sei bem o porquê, retiro do bolso um pequeno papel. O aliso para conseguir entender melhor o que está escrito: “... agora é a hora de montar seu roteiro de viagem... comece pelos grandes eventos!”. Dispensar tempo para pensar como aquele pedaço de papel foi parar ali, eu sabia que seria inútil. Mesmo ciente que não existia um prazo, mas sim um marco final, era inegável que o descanso estava no fim.

Um roteiro de viagem se faz necessário quando se quer ter uma noção do que há de importante para ser visto em determinado local. Desse modo, os passos serão mais decididos, certeiros, sem motivos para enganos ou tropeços. Além, é claro, de garantir uma ótima visão espacial do que pode ser aproveitado do geral, delimitando as relevâncias.


H (separando o joio do trigo)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ponto de vista



Certa vez, não me lembro muito bem onde, li que cada história, para ter seu contexto acertadamente analisado, depende de um ponto de vista “sorteado” em vários.

Tudo é uma questão de visão. A análise surge sobre o prisma do observador diante de um caso específico. Ilustrarei melhor o meu discurso com a comparação entre dois fatos parecidos que me ocorreram nos últimos dias:

1º caso: sexta-feira, dia 13. Um dia assombrado para alguns, mítico para outros. Para mim, um dia normal. Como sempre. Cheguei ao ponto do primeiro ônibus que pego para ir trabalhar no horário de costume. E, como de praxe, fiquei mais de 10 minutos esperando o maldito de busão passar. Quando adentrei ao dito cujo, a primeira coisa que me veio à cabeça foi “vou me atrasar”! Dito é feito;

2º caso: hoje, dia 16. O despertador tocou no horário certo. Eu o desliguei e voltei a dormir. Acordei num sobressalto, em cima do horário limite. Ciente do meu atraso, fiz o possível para me arrumar em tempo digno do Guiness Book (com 9 minutos, acho que mereço ao menos uma menção honrosa! rs). Andei o mais rápido que eu pude para chegar ao ponto. No caminho, um pensamento fortuito me veio a mente: “como seria bom se o ônibus atrasasse hoje também!”. Dois minutos de espera no ponto foram suficientes para me deixar contente.

Entenderam a questão do ponto de vista?! No primeiro caso, eu tinha tudo para ficar estressado o restante do dia com relação a isso. Porém, não foi isso que me irritou nesse dia, e sim o fato de eu ter acordado no horário, me arrumado no prazo, chegar ao ponto com tempo de sobra e, mesmo assim, por motivos que fogem da minha alçada, chegar atrasado no trabalho. Já no segundo caso, eu já estava conformado que me atrasaria. Contudo, fiquei contente, justamente porque o ônibus passou com o mesmo atraso de antes.

Alguns o chamariam de ironia... eu, chamo de destino. Tudo depende do seu ponto de vista, do ângulo pelo qual se observa.


H (1x1)

domingo, 15 de novembro de 2009

Momento poesia XXXI



(Des) gosto *


Nunca vi algo pior tal
esta arte sutil e ingrata.
Quem a conhece, chama-a desleal;
quem não sabe, é abstrata.

Viril e astuta como um aristocrata;
paciente e decidida como um intelectual.
Quem a despreza, logo o mata
e ainda ri durante o seu funeral!

Não possui definida duraçao nem forma.
Sempre imprevisível como toda estréia
- Nada ela cria, tudo ela deforma...

Com ela, você só consegue perder:
amigos, paciência, a primeira ideia...
nessa arte estúpida de viver!

(Michel Ferrera)


H (saudade dessa época)
* Escrita em 29/08/2000
Imagem retirada daqui

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Auto-história: a hora e a vez do felino britânico



Se fosse possível aos mais entendidos do assunto listarem numa das mãos os melhores carros-esporte fabricados na terra da Rainha Elizabeth, tenho certeza que, na grande maioria dos casos, o primeiro dedo "citaria" o carrinho que será analisado nesse post.

Porém, antes de cairmos de cabeça nesse bólido, vale fazer um breve balanço histórico: durante a década de 1950, na Europa, não existia melhor "laboratório" para os fabricantes poderem testar suas criações do que a famosa corrida das 24 Horas de Le Mans. Essa, por sua vez, foi responsável por imortalizar carros espetaculares, sonhos para qualquer colecionador que se preze.

E, se teve uma montadora que aproveitou e muito os bons fluídos da pista francesa, foi a britânica Jaguar. Entre 1951 e 1957, ela fez a festa na prova anual utilizando seus dois modelos fabricados na época: o C-Type e, sua evolução, D-Type. Com a pintura verde escura tradicional dos carros de corrida britânicos – o famoso British Racing Green –, o D-Type era um verdadeiro foguete! Era capaz de fazer de 0-100 km/h em impensáveis 4,7 s!

A marca já tinha um sedã e um esportivo (o Mark II e o XK 120, respectivamente) que faziam sucesso em vendas na Europa e Estados Unidos. Porém, o destaque que o D-Type estava recebendo, fez a diretoria da Jaguar repensar na imagem de um carro-esporte para uso "doméstico": nascia assim o XK SS. Infelizmente, poucas unidades foram construídas e comercializadas, por causa de um grande incêndio que danificou extensamente a fábrica de Coventry (sede da marca). O jeito foi recomeçar o projeto, dessa vez com a ajuda do famoso construtor americano de carros de corrida Briggs Cunningham.




Em março de 1961, no Salão de Genebra, era apresentado o resultado final do tal projeto: o Jaguar E-Type. Chamou muita atenção do público, sendo muito elogiado pelas belas linhas. Segundo a imprensa da época, o carro era "bonito de qualquer ângulo". A carroceria exibia formas arredondadas e imponentes. Media 4,45 m e apenas 1,22 m de altura. O cupê tinha ótima área envidraçada, coisa rara num esportivo. Sua frente era muito grande, com o capô fazendo uma só peça com os pára-lamas e tinha abertura contra o vento. A grade estreita, herdada do D-type, tinha formato oblongo e os faróis circulares eram carenados.

Desenvolvia potência de 265 cv, suficientes para levar o esportivo de mais de 1.200 kg a 230 km/h, desempenho muito bom naquele tempo. A direção, tipo pinhão e cremalheira, algo pesada em manobras, tornava-se suave e precisa em velocidade. Os freios Dunlop, a disco nas quatro rodas, eram assistidos mas não muito eficientes.

Por dentro, tudo de muito bom gosto e refinamento. Se o capô era grande, o habitáculo nem tanto. Os bancos dianteiros eram confortáveis, mas limitados. Atrás do volante, havia uma vasta instrumentação de boa qualidade. Se na Europa ele ficou conhecido como E-Type, nos EUA seu codinome era XK-E. Foi um sucesso de vendas, principalmente porque seu preço final era bem menor que a da maioria de seu concorrentes diretos.

Em 1968, era lançada a sua segunda geração. Por fora, a grade oblonga estava maior, as luzes de direção (tanto atrás quanto na frente) vinham abaixo dos pára-choques. Por dentro, ganhava bancos mais confortáveis, com reclinação total e encosto de cabeça. Com o aumento da concorrência (com a chegada do Porsche 911, Shelby GT 350 e Chevrolet Camaro, por exemplo), porém, as mudanças precisaram ser mais sólidas.




Dessa forma, surgia, em 1971, a maior mudança do carrinho: ele ganhava um motor V12 todinho, só para ele! A potência passava a 272 cv, com a velocidade final aumentando para 235 km/h, e o peso subia sensivelmente: 1.450 kg. Só era vendido na versão longa com pára-lamas mais largos, pois a bitola havia aumentado, e na traseira, recebeu um reforço estrutural. Na frente a grade também ficava maior. O escudo-símbolo da marca vinha ao centro e não havia mais a régua metálica que cortava a grade oblonga, que era toda cromada.

Em 1975, após um total de 71.071 exemplares fabricados entre cupês e conversíveis, o E-type, já com idade avançada e concorrência muito forte, deixava o mercado. Ao lado do XK e do Mark II, faz parte dos Jags mais famosos. E nunca teve sucessor à altura: o XJ-S de 1975 estava longe de repetir sua elegância.

Para os cinéfilos, as dicas são as seguintes: no filme Ensina-me a viver, de 1971, vemos um E-Type convencional transformado num carro funerário pelo protagonista; em Corrida contra o destino, também de 1971, o E-Type confronta o Dodge Challenger dirigido pelo protagonista, mas acaba levando a pior; em Comboio, de 1978, a bela Ali MacGraw pilota um E-type da última série; e, como deixar de citar a série de filmes do detetive Austin Powers: seu carro é um E-Type pintado com a bandeira britânica (como o da terceira foto).


H (mais um sonho de consumo!)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Penalizado



Se tem uma coisa que não gosto de sentir pela outras pessoas é pena. Acho um sentimento degradante, humilhador demais para nutrir pelo próximo.

Hoje mesmo, dentro do busão que sempre pego para chegar ao reduto “vidro-concrético” da Paulista, uma moça passou mal. O motivo eu não sei ao certo, até porque, não sou do tipo que se interessa pela vida de um desconhecido. Mas voltando: o ônibus estava lotado (como sempre!) e quem estava ali perto fez o que pode para ajudá-la. Quem teve a sorte de se encontrar um pouco mais afastado do ocorrido, se achou logo no direito de fazer aquele semblante de “aí, que dó!” como se estivessem contemplando um espetáculo da companhia circense “Vila Anastácio / Paraíso” que não estava surtindo o efeito desejado.

Eu, com meus fones de ouvido e sentado quietinho no meu lugar, apenas lancei um olhar ao redor e continuei o meu vislumbre matinal da Avenida Angélica. Logo que a moça conseguiu juntar forças (e espantar uma dezena de pessoas cheias de repulsa), a loira que se encontrava do meu lado ficou me encarando como se eu fosse um vidro enorme de água oxigenada em promoção.

Ela não disse nada, mas eu sei no que ela estava pensando: por que eu não demonstrei estar penalizado pela moça em nenhum momento sequer?! Se ela tivesse me perguntado, eu responderia: porque, se eu não podia ajudá-la de alguma forma ativa, sentir pena não iria confortá-la de maneira alguma.

Talvez eu não gostei de sentir pena por alguém porque também não gosto que as pessoas sintam o mesmo por mim. Ser rotulado de “coitado” (ou, ainda pior, pelo seu diminutivo: “tadinho”) é mais do que perturbador... é uma falta de respeito.


H (e amor.. por pena?!)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Conversando.. no banheiro?!



Algumas semanas atrás, enquanto estava juntando forças para assistir uma das palestras da 4a semana de biblioteconomia da faculdade, comecei meio que por imposição a participar de uma conversa de duas colegas de curso (que, por motivo de preservação de suas integridades física e moral, ficarão conhecidas como “Estrela-do-mar” e “Primeira mulher”).

Não sei como tudo chegou aquele ponto. Só sei que, no instante em que meu pára-quedas abriu, a confabulação havia chegado a um ponto que, logo presumi, só daria merda.

A Srta. “Primeira mulher”, num ataque pouco elucidativo de curiosidade, queria saber que tipo de coisa os seres humanos do sexo masculino conversavam quando estavam no banheiro. Não acreditando na minha resposta, mesmo com a corroboração do Sr. “Acólito oriental” (outro colega que dispensa apresentações), que se encontrava por ali depois de ser jogado de um cargueiro nipônico, ela disparou aquele que, acredito eu, seja uma das questões mais perturbadoras para o universo feminino em relação ao masculino: “mas, por que os homens não conversam no banheiro?!”

Nos três ou quatro segundos seguintes, acho que devido ao calor do ambiente naquele instante, posso jurar que ouvi o criquilar de um grilo.

Nunca havia imaginado que um dia precisaria responder a essa pergunta! Afinal, existem tantos lugares mais convidativos para um bate-papo entre homens: um barzinho, uma balada, um jogo de futebol, uma aula chata de “Estudo de Usuário” etc. Então, para quê nós, machos reprodutores graças a evolução e a seleção natural, iríamos jogar conversa fora justamente num lugar reservado para (usando termos suaves) eliminar fluídos e manter a (pouca) higiene em dia?!

A descrença desmedida da Srta. “Primeira mulher” me deixou muito encucado. Mesmo demonstrando pouco interesse (ou sapiência daquilo que escrevi no parágrafo anterior), a expressão da Srta. “Estrela-do-mar” também me deixou pensativo. Vou pesquisar um pouco mais sobre isso (sim, eu vou!) e trarei os resultados da minha pesquisa de campo num próximo post.


H (afinal, por que as mulheres conversam no banheiro?!)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Cabeceira do H - 66 ou 67?!




Quatro meses passam mais rápido do que podemos imaginar. Ou desejar. E esse é exatamente o tempo que se passou desde a última vez que escrevi esse quadro.

Parece que estou meio saudosista recentemente. Devido a falta de inspiração e tempo livre, ando relendo alguns posts antigos e, consequentemente, acabo por ressuscitar uma coisa ou outra. Agora mesmo, enquanto escrevo esse post, me surgiu a ideia de um novo post sobre esse tema.

Bom, mas deixemos isso de lado por enquanto e partamos para o já clichê momento flashback:

Dennis Lehane virou, em pouquíssimo tempo, meu autor favorito. Acho fascinante a maneira como ela conduz a trama de seus livros. É quase como um papo informal com os leitores. A descrição dos detalhes é mais que perfeccionista. Porém, diferente de muito outros autores, Dennis não peca pelo excesso (nem pela falta!). Aliás, para mim, esse é seu grande ponto forte: ele não peca; não deixa bordas, nem falhas. Assim, fica diícil de não se identificar com um (ou mais) dos personagens.

Como eu já disse aqui, cheguei até o autor graças a uma matéria na revista Veja. O vício chegou a tal ponto que, sempre que entrava em uma livraria, me sentia tentado a conferir se tinham algum lançamento dele. E foi numa dessas andanças que cheguei ao livro responsável pela dica desse post.

Paciente 67 (Shutter Island) tem como palco um sanatório localizado numa ilha que, devido a um furacão que se aproxima, está para ficar totalmente isolado do continente. No verão de 1954, dois xerifes são chamados até o sanatório (e ao convívio de seus 66 pacientes e quadro médico) para investigarem o estranho desaparecimento de uma paciente, uma assassina com mais de um parafuso a menos. O xerife Teddy Daniels, que acabara de passar por uma perda amorosa fatídica, logo se vê um labirinto de desconfianças e mentiras. A todo momento, a mesma pergunta lhe parece o detonador de todo o mistério: "afinal, o que aconteceu com o paciente nº 67?!"

Logo ele repara que nada é 100% confiável. Nem mesmo a sua (até então) inabalável sanidade.

Indico para aqueles que gostam de se envolverem numa trama até o pescoço. Para os amantes de revira-voltas, de falsas pistas, anagramas. Mas, principalmente, para quem quer entender bem a merda que Martin Scorsese deve ter feito com a sua adaptação para o cinema... até porque, convenhamos, qual adaptação é melhor que o original? Quiça, fiel?!


H ("Xerife", ela disse. "Você não tem amigos")

sábado, 7 de novembro de 2009

Oscar® 2010 - 2a parte


Como eu disse no post anterior, o último dia 5 foi o dito dia mundial do cinema. Acabei me lembrando um pouco em cima da data. Então, infelizmente, deixei de postar meu texto especial para a data, porque ele estava salvo no meu pendrive que, para variar, esqueci em casa.

O quadro de diretores, que já estava pronto, acabou servindo de "tapa buraco". Porém, como Truffaut não é, nem nunca foi, um substituto para nada, aqui está o post "original", aquele separado realmente para isso:

Se vocês não estão lembrados, num longuínquo post de junho, relacionei a 1a parte do que imaginava ser a minha lista de prováveis indicados a premiação do Oscar® 2010. Confesso que pequei em um deles (mas só porque o Martin Scorsese ficou com "medinho"), contudo, dessa vez, acho que criei a "lista perfeita" ("It's alive", como berraria Gene Wilder).

Bom, deixando as brincadeiras para outro post mais adequado, sigamos para a dita relação (em ordem alfabética):

* Amélia: com a mais do que "oscariável" Hillary Swank no papel principal, o filme é uma biografia da aviadora Amélia Eckheart, primeira mulher a atravessar o Atlântico e o Pacífico sem escalas. Na direção, seguindo a nova tendência cinematográfica, está a diretora indiana Mira Nair, que ficou conhecida mundialmente por filmes como "Feira das Vaidades" (2004) e "Nome de Família" (2006). Apesar de fazer alguns filmes medianos e péssimos ultimamente, parece que Hillary Swank sempre encontra uma maneira de participar da festa do Oscar®.



* Chéri: depois de três anos sem apresentar um trabalho inédito, o diretor Stephen Frears traz o seu Chéri para a briga. Seguindo uma linha parecida de seu primeiro sucesso ("Ligações Perigosas"), inclusive na trilha sonora, dessa vez, Michelle Pfeiffer está no papel principal, servindo de iniciadora amorosa para um jovem 20 anos mais novo. Foi o grande sucesso do Festival de Berlim, quando foi apresentado pela primeira vez ao público.



* Coco antes de Chanel: Anne Fontaine já havia me surpreendido com o filme "A Garota de Mônaco", que estreou alguns meses atrás. Porém, com essa biografia da estilista Coco Chanel, ela parece ter se superado e colocado seu nome no hall dos grandes diretores. Aquele biquinho da Audrey Tautou finalmente encontrou um papel perfeito. Ainda não tive a oportunidade de ver, mas a Bequinha continua tentando me empurrar para isso.. rs



* Invictus: o que eu posso dizer? Estou muito ansioso para ver mais esse filme do mestre Clint Eastwood. Já sabia desde o começo do ano que ele estava produzindo um filme sobre o presidente sul-africano Nelson Mandela. E os boatos sobre Morgan Freeman finalmente se tornaram realidade. Pelo trailer é possível perceber que, além do esmero do ator no papel principal, a trilha sonora também deverá ser um destaque na noite máxima do Theatro Kodak.




* Os Piratas do Rock: juntamente com o filme anterior, é aquele que estou mais ansioso para ver (deve estrear por aqui no dia 13 desse mês). Como já disse um amigo meu que teve a sorte de assistir a estréia em Londres, esse "é um filme que todos os fãs do verdadeiro Rock'n'Roll deveriam ver". Richard Curtis, mais conhecido como produtor e roteirista de filmes como "Quatro Casamentos e um Funeral" (1994) e "Um Lugar Chamado Notthing Hill" (1999), é o diretor dessa comédia sobre a revolução das rádios britânicas no final da década de 1960.



* A Serious Man: o mais novo trabalho dos irmãos Coen. Diferentemente do premiado "Onde os Fracos Não Têm Vez" (2007) e muito mais parecido com o engraçadíssimo "Queime Depois de Ler" (2008), conta a história de um judeu entrando em parafuso depois que sua mulher anuncia que vai abandoná-lo. A estréia será na primeira semana de dezembro.



* This is it: não sendo mais possível participar da premiação como Melhor Documentário, resta a esse filme sobre os ensaios do que viriam a ser as últimas apresentações do Rei do pop Michael Jackson, lutar pelas outras categorias. E, pelo que eu vi, brigará com certeza.




H (Agora, é só esperar)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Diretores - François Truffaut



"Expor roupa suja ao público, por meio da arte, nunca leva a uma obra-prima". [F. T.]

François Truffaut nasceu na cidade de Paris, em 6 de fevereiro de 1932. Filho de Roland Lévy e Jeanine de Montferrand, foi criado pelos avós maternos, já que a mãe o tinha como filho bastardo. Foi a avó quem despertou no menino a paixão pela literatura e música. Com sete anos, François viu o primeiro filme no cinema ("Paradis perdu", de Abel Gance).

Aos 10 anos, após perder a avó, foi morar com a mãe, que estava casada com Roland Truffaut, um arquiteto católico. Este acabou registrando o garoto com o seu sobrenome. Rechaçado tanto pelo pai adotivo quanto pela mãe, seu espírito rebelde transformou-o em um mau aluno na escola, levando-o a cometer alguns atos de delinqüência, como pequenos furtos. Naquele tempo, François Truffaut costumava matar aula para assistir a muitos filmes secretamente. A paixão pelo cinema fez o jovem Truffaut largar os estudos e fundar, em 1947, um cine-clube, chamado "Cercle cinémane".

Apesar de modesto, seu cine-clube acabou por atrair a atenção do escritor e crítico de cinema André Bazin. Este tornaria-se uma espécie de "mestre" para François. Sua influência na vida de Truffaut foi decisiva. O jovem tornou-se autodidata, esforçando-se para ver três filmes por dia e ler três livros por semana. Ele até chegou a fazer um acordo com o pai adotivo, que lhe custearia despesas derivadas de sua vida cinéfila. Em troca, Roland Truffaut exigiu que François arrumasse um emprego estável e abandonasse o seu cine-clube de vez. Mas o garoto descumpriu o acordo, e Roland Truffaut internou-o em um reformatório juvenil e passou sua custódia para a polícia.

Quando Truffaut completou 18 anos, Andre Bazin o contratou como seu secretário pessoal. Bazin continuou a lhe dar a formação adequada em cinema, introduzindo-o no "Objectif 49", um seleto grupo de jovens estudiosos do novo cinema da época, como Orson Welles e Roberto Rossellini. Em abril daquele ano (1950), François Truffaut foi contratado como jornalista pela revista “Elle” e passou a escrever seus primeiros textos como crítico de cinema.

Em 1953, Bazin ajudou Truffaut a entrar para sua nova revista, “Cahiers du cinéma”. Sua participação nessa publicação foi de suma importância para o desenvolvimento da sua famosa "Politique des auteurs" (teoria autoral, em português). Neste conceito, o filme é considerado uma produção individual, como uma canção ou um livro. Truffaut defendia que a responsabilidade sobre um filme dependia quase que exclusivamente de uma única pessoa (em geral o diretor).

A "Politique des auteurs" foi a base para o surgimento de um movimento que revolucionaria o cinema francês. Criada por jovens cineastas franceses, a Nouvelle Vague defendia tanto a produção autoral como também uma produção intimista e a baixo custo. Porém, havia uma dúvida: será que um crítico era capaz de fazer um filme? Truffaut estava disposto a provar que sim. Em 1956, foi assistente de produção de Rossellini e, no ano seguinte, fundou sua própria companhia de cinema, a “Les films du Carrosse”.

Contudo, apenas no ano seguinte, quando se casou com Madeleine Morgenstern, filha do rico distribuidor Ignace Morgenstern é que Truffaut conseguiu garantir plena independência artística-financeira para os seus trabalhos.

Em 1973, um de seus maiores sucessos, “A Noite Americana”, vence o Oscar® na categoria de Filme Estrangeiro. Quatro anos depois, atua com perfeição no filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, do seu amigo e diretor Steven Spielberg.

Um dos fundadores do movimento Nouvelle Vague e um dos maiores ícones da história do cinema do século XX, Truffaut conseguiu conciliar um grande sucesso de público e de crítica na maior parte das suas produções. Os temas principais de sua obra foram as mulheres, a paixão, mas, principalmente, a infância. Muito recorrente em seus filmes, Antoine Doinel, um alter-ego do diretor, tornou-se uma de suas marcas registradas.

Em quase 25 anos de carreira como diretor, Truffaut dirigiu 26 filmes. Começou a escrever sua autobiografia, juntamente com seu amigo Claude de Givray, porém, devido a problemas de saúde, não conseguiu concluí-la. Faleceu em 21 de outubro de 1984, na cidade de Neuilly-sur-Seine, França, vítima de um tumor cerebral, causado pelo vício do cigarro.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:

* Os Incompreendidos (1959)
* Jules e Jim (1962)
* Fahrenheit 451 (1966)
* A Noiva Estava de Preto (1967)
* Beijos Proibidos (1968)
* O Garoto Selvagem (1970)
* A Noite Americana (1973)
* O Homem que Amava as Mulheres (1977)
* O Último Metrô (1980)
* De Repente, Num Domingo (1983)


H (hoje, dia mundial do cinema.. em breve, post especial!)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Momento poesia XXX



Muerte *

¡Qué esfuerzo!
¡Qué esfuerzo del caballo por ser perro!
¡Qué esfuerzo del perro por ser golondrina!
¡Qué esfuerzo de la golondrina por ser abeja!
¡Qué esfuerzo de la abeja por ser caballo!
Y el caballo,
¡qué flecha aguda exprime de la rosa!,
¡qué rosa gris levanta de su belfo!
Y la rosa,
¡qué rebaño de luces y alaridos
ata en el vivo azúcar de su tronco!
Y el azúcar,
¡qué puñalitos sueña en su vigilia!
Y los puñales diminutos,
¡qué luna sin establos, qué desnudos,
piel eterna y rubor, andan buscando!
Y yo, por los aleros,
¡qué serafín de llamas busco y soy!
Pero el arco de yeso,
¡qué grande, qué invisible, qué diminuto!,
sin esfuerzo.

(Federico García Lorca)


H (el vivo)


* Poema publicado, originalmente, no livro “Poeta en Nueva York”, de 1929/30.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dia da saudade



Hoje, dia de finados, longe de ser considerado uma comemoração, para mim é um dia de reflexão, de recordação, dedicado a todos aqueles com quem tive o privilégio da convivência, porém, que por uma fatalidade qualquer, deixaram de existir fisicamente para co-existirem em outro lugar, além de viverem em nossas lembranças.

A primeira vez que fui "convidado" pela D. Morte a sentir falta de alguém foi aos 9 anos. Alguns colegas da escola foram até a minha casa e disseram que um amigo com o qual, quase sempre, voltava para casa, havia morrido num acidente, justamente quando esse voltava da escola.

Eu não sei quanto a vocês, mas, nessa idade, não tinha a mínima noção do que a palavra "morte" significava. Meus pais, reparando que eu não demonstrava estar nem um pouco chocado, resolveram conversar comigo naquele dia sobre isso. Na segunda-feira (tudo aconteceu na sexta anterior), na primeira aula após o ocorrido, fomos todos a escola, porém, a professora resolveu discutir com os alunos o que havia acontecido. Pude perceber nos olhos da professora a emoção que lhe surgiu ao ler o nome desse amigo na lista de chamada.

Ao mudar de cidade, de 1995 a 2001, topei com a D. Morte mais 13 vezes, perdendo familiares (minha bisavó em 1995 e meu avô em 2001) e amigos (inclusive o Michel, em 2001).

Sei que, chamando-a assim de "D. Morte", pode parecer que a considero, que a respeito. Mas não chega a tanto. Apenas sei da sua existência e a julgo merecedora de certa formalidade, nada mais.

Meu avô me disse, certa vez, que o ato de sentimos saudades de alguém denota o quão importante aquela pessoa foi para a nossa formação. Em outras palavras, saudade é sinal da influência do outro em nós.

Por isso mesmo, dedico esse post a todos aqueles que passaram pela minha vida, deixando marcas através de ensinamentos, sorrisos e trejeitos, linguajares e, principalmente, sentimentos. Um dia, espero encontrá-los. Mas, hoje não. Ainda não.

"Por dentro do peito, aqui no lugar onde resguardo meu valente pulsante, sou como uma miscelânea humana, como um Frankenstein [...], sou grato a cada um de vocês porque, se sou o que sou hoje, é devido ao pedaço de cada um de vocês que carrego nesse mesmo peito." [M. F.]


H (It's complicated)