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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Mórbido monólogo



Depois de passar 2 dias completos pensando apenas nela, decidi faltar ao trabalho e fazer algo de mais útil no último feriado: fui ao seu encontro. E, a palavra que melhor pode defini-lo é “estranho”.

Foi estranho revê-la sem contar com sua presença física. Foi estranho ler seu nome, acocorar-me diante dele e refletir sobre o que dizer. Talvez não devesse dizer nada. Não sei se meu silêncio faria alguma diferença. Para ela, certamente não faria. Mas desabafar foi crucial para mim.

Fiquei ali, aos seus pés, por mais de duas horas, relatando tudo que julguei relevante. Pessoas me circundavam o tempo todo, algumas estavam absortas em seus próprios pensamentos; outras, curiosas à distância; haviam alguns fantasmas também. Mas esses surgiam e morriam conforme as frases atravessavam minha boca e pegavam carona na suave brisa linense.

Tive inúmeros instantes de silêncio constrangedor até perceber que minha teatralidade não passava de um monólogo. Uma morbidez inspirada por outrem. Não estou acostumado com isso. Sempre, em nossas conversas, fiz o papel de bom ouvinte. Porém, desta vez, o roteiro me pertencia. Logo, cabia a mim fazer a escolha certa de palavras. Ou não.

Nosso encontro (que nunca chamarei de visita) rendeu muito. Claro que não me senti aliviado como pessoas próximas me afirmaram que me sentiria. Contudo, relembrar momentos passados juntos me rendeu alguns risos sinceros e uma recordação musical das mais inusitadas: canções das quais tenho vergonha de dizer que gosto. Sinto-me envergonhado ao relembra-las, principalmente, por retratarem momentos embaraçosos que passamos juntos. E por serem artistas dos quais nunca nutri a menor fração de admirador. Essa é e sempre será ela: alguém que me inspira e vexa, mesmo ausente fisicamente.

Mas antes de enumera-las (o que ficará, devido ao tamanho deste, para um próximo post), acho essencial abrir aqui um parêntese para falar diretamente com ela: fiz uma visita rápida aos seus pais. Eles continuam como da última vez que os vi. Como imaginei, talvez pelo sofrimento ainda recente, evitaram mencionar seu nome. Certamente, já sabiam o motivo da minha aparição repentina. Seu pai me ofereceu café e se mostrou interessado pelo meu trabalho. Sua mãe me acompanhou até o portão da casa, deu-me um beijo na bochecha e sussurrou um “obrigada por ter vindo”. Prometi ligar quando terminasse a jornada de volta. Por uma boa causa, quebrei minha promessa. E estou prestes a quebra a outra que lhe fiz.


H (Gélido)

sábado, 19 de outubro de 2013

"O que acontece quando morremos?"



“O que acontece quando morremos?”. Por motivos óbvios e, agora, irrelevantes para uma explicação aprofundada, essa foi a frase que mais vezes abarcou minhas sinapses nas últimas duas semanas. Pensamentos fugidios que se concluíam, não por acaso, na maior parte do tempo da mesma forma: em círculos. Elipses, para ser mais exato.

Afinal, o que acontece quando nós passamos? Tentei encontrar respostas em minhas leituras. Porém, nem toda a filosofia que já vislumbrei foi suficiente para elucidar tamanho mistério. Aqui abro um parêntese: preciso voltar a ter interesse por isso. Deixar de lado leituras rupestres e me inteirar pelos mais diversos pensadores. Voltar a lê-los por interesse, como fazia antes de entrar na faculdade. Naquela época de ouro, Foucault e Nietzsche colidiam com Platão e Jean-Paul Sartre de forma harmoniosa. Sem cobranças, realmente me deliciava a cada página passada. Fecho o parêntese.

Talvez, no momento mais lógico de minha vida, resolvi parar de destrinchar imaginários alheios e cheguei a uma bifurcação: ou ninguém sabe satisfatoriamente, ou ninguém dignamente letrado jamais regressou.

Minha insignificante sapiência apenas me permite listar o que fica: sentimentos interrompidos, entes queridos corroídos, credores enraivecidos (sim, eu os tenho), projetos em stand by.

A verdade é essa: sou todo curiosidade. Com algumas pitadas de saudade e cansaço.

A vontade? Reticências

Não tenho coragem para tirar minha própria vida. Eu rezo todas as noites para encontrar a força para fazê-lo, mas a coragem me escapa. [...] Minha vida é um constante estado de medo de alguém ou de algo. É impossível nadar contra a corrente. Vale a pena viver a vida?

(Shirley Harrison, ‘O diário de Jack, o Estripador’)


H (live and let die)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Obituário


Sinto falta. Muita falta de como a vida era, 12, talvez 13 anos atrás. Ela não é injusta, como muitos dizem. Possui, na verdade, uma face vil e misteriosa que, para aqueles de pensamento pacatamente inclinado para o lógico e limitado, fica mais fácil e é muito mais reconfortante rotulá-la maldita do que bendizê-la. Nada é culpa, tudo é conseqüência.

Da mesma maneira, a vida também não é cruel. Crueldade é substantiva-la em excesso, como numa tentativa utópica de reescrever a fábula de Pinóquio e Geppetto. Vida deveria ser, frequentemente, mais verbo e adjetivo.

Confesso que é difícil. Extenuante, às vezes. O impossível não é peça de coleção, mas vocábulo de uso desregrado. Até um coração de pedra pode sangrar. Sim, pode.

Você tem o direito de se arrepender de muitas coisas, atos e ações. Contudo, nem meio mundo e três oceanos são obstáculos plausíveis para engavetar-se à comiseração. Acordado também se sonha. Não raro, imperceptivelmente. Tempo é invenção do ser humano, esse animal irracional que, mesmo podendo falar, prefere por inúmeras vezes o silêncio. E se arrepende quando o céu já está estrelado. Distância são grades autoimpostas, amarras invisíveis de uma consciência subconsciente.

Sinto falta do início. O fim, já conheço muito bem. E seu sabor na boca, impregnado entre meus dentes é nauseante. Agridoce.

De herança, aquela que realmente vale, ficaram as imagens. Cenas em um devaneio reprisado. Já desbotadas, esbranquiçadas nas pontas, levemente turvas pelo restante do quadro. Fazer o quê?! O projetor está velho e o restaurador está morto.. por dentro.

E se há algo que se possa contar, que valha a pena ser repassado, é que a vida, esse adjetivo fugaz e lisonjeiro, perdeu um pouco de graça. Seu foco, a partir de agora, minguará em qualidade. O brilho se perdeu, de repente.

E pela segunda vez, minha despedida foi encenada com um objeto inanimado. Sentirei falta das palavras mortas na ponta da língua e dos sentimentos semicerrados. De escrever cartas que nunca serão lidas, ensaiar encontros de reconciliação, temer previamente por tapas que não serão mais deferidos.

A vida, minha vida na verdade, foi outra com você. E será outra sem. Insossa, opaca e assustadoramente previsível. Foi-se a lima que arredondou meus cantos. Entretanto, como diz um ditado italiano, que meu avô repetia sempre, “quem nasce quadrado não morre redondo”.

Vida não é culpa. É consequência. Agora eu sei. Você, sempre soube. Fim.

“A meia distância

Claridade infusa na sombra,
treva implícita na claridade?
Quem ousa dizer o que viu,
se não viu a não ser em sonho?

Mas insones tornamos a vê-lo
e um vago arrepio vara
a mais íntima pele do homem.
A superfície jaz tranqüila.

(Carlos Drummond de Andrade, ‘Como encarar a morte’, 1984)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Prerrogativas de uma morte anunciada¹ - Conto perdido²


Tudo aconteceu tão rápido...

Apesar d’ele saber que era impossível, aquele parecia ser mais um dia como outro qualquer. Nenhuma novidade, nada fora do comum (como se o ‘comum’ fosse algo mensurável).

Mas tudo aconteceu tão rápido... quando se deu conta, já havia sido atingido, forçado a girar nos calcanhares, sendo a queda algo inevitável. Se Newton e Murphy estivessem ali, com certeza estariam apontando o dedo para sua cara enquanto gritavam efusivamente “ninguém escapa das leis, rapaz!”

Estendido sobre o asfalto escaldante, o único calor que sente, porém, é o do líquido viscoso que se esvai pelos seus cortes, impregnando-se em sua pele suada, formando pequenas poças brilhantes de um aroma repulsivo.

Começa a sentir frio.. não aquela sensação gélida relacionada à baixas temperaturas.. não, é uma sensação de vazio, um calafrio persistente percorrendo, vagarosamente, sua espinha de cima a baixo e estagnando em seu estômago.

Deve ser assim que as pessoas se sentem quando estão nessa situação, pensou ele. Um turbilhão de pensamentos fragmentados começou a invadi-lo.

Se esse era seu último instante, se pôs, então, a pensar em quem sentiria a sua falta. Talvez a Laura?! Pouco provável, já que não se viam há mais de 2 anos. E seu círculo de amigos?! Thomas, Marcelo, Eduardo... talvez não de todo. Afinal, como dizia Victor Hugo, eram corajosos sem dúvida... mas fidelidade era algo que sua amizade, provavelmente, não inspiraria numa hora como essa.

E o que seria de seus pais?! Como suportariam passar por isso?! Seu pai, militar aposentado, amargo e ranzinza por experiência de vida, certamente, diria “e o que mais poderia se esperar? Nascido de um acidente, só poderia morrer do mesmo modo”. Sua mãe, reservada por apelido, enlutaria-se por uma semana, choraria uma vez ou outra e logo esqueceria.

Lançou um olhar a sua volta. Na verdade, nem meia-volta. Com uma das bochechas colada ao solo, ficava impossível um ângulo de visão maior que 120º. Diante de tantos rostos desconhecidos, com suas impressões que iam da indiferença a curiosidade mórbida (óbvio!), balbuciou um inocente “me desculpem”, porém, isso só lhe fez recordar dos versos de Chico Buarque, que ele, apenas por não ter nada mais urgente por fazer, começou a murmurar:

E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Logo vieram a mente as lembranças de seu avô.. a velha vitrola onde ouvia Chico Buarque numa repetição exaustiva.. a precária máquina Olivetti, da qual saiam sons quase tão belos quanto dos discos de vinil.. as vezes em que sentava na calçada, junto ao seu avô.. olhos fixos no horizonte e ouvidos atentos as maravilhosas histórias que ele tinha para contar.

De repente, ao longe, ele ouve um sussurro a lhe chamar... seria Deus, ou algum de seus intermediários?! Supostamente, não.. Deus era um luxo para o qual ele nunca se sentiu tentado a dedicar muito do seu tempo. Apreciava, era verdade, toda a mitologia construída a sua volta: céu, inferno, reencarnação, pecados, arrependimentos... mas acreditar, isso era assunto para adultos.

- Ei, Edgar.. Tá tudo bem?! Deixa eu te ajudar a levantar – disse Thomas, seu melhor amigo, estendo-lhe a mão.

- Obrigado... cof, cof...

- Por que você ficou tanto tempo caído? No que estava pensando?

- Nada em especial... apenas nas prerrogativas de uma morte anunciada – exclamou Edgar, averiguando se estava tudo nos devidos lugares.

- Eu sabia! Você e seus pensamentos funestos! Melhor voltarmos ao jogo.. acho que ainda podemos reverter o placar – disse Thomas, se afastando do amigo.

- Funestos?! – indagou Edgar. E, desolado, completou num sussurro - Até a morte idealizada perdeu seu direito de existência.


H (bons tempos)


¹ Qualquer coincidência com o título do livro "Crônicas de uma morte anunciada", de Gabriel Garcia Marquez, acreditem, não é mera...

² Conto escrito, originalmente, em 19 de janeiro de 1999, em homenagem ao 190º aniversário de nascimento do escritor Edgar Allan Poe.


Imagem retirada daqui

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cabeceira do H: ao autor que não li



Não nos conhecíamos pessoalmente. Encontrávamos vez ou outra, ora numa livraria ou sebo, ora numa reunião entre amigos próximos. Na verdade, depois de certo tempo, nossos “esbarrões” tornaram-se bem freqüentes. Não podia se esperar menos, já que tínhamos um círculo de amizade muito parecido e, consequentemente, restrito.

Porém, apesar disso, além do fato de compartilharmos o mesmo idioma, nunca tivemos a oportunidade de trocar uma única palavra. Nem um “Olá! Tudo bem?!”, “Prazer em conhecê-lo”.

A solitária vez em que tentei lê-lo (“Memorial do convento”), foi graças a um dos meus tios maternos, um típico intelectual-entusiasta que, na falta de um filho, apreciava repartir sua vasta sapiência com seus sobrinhos (pensando bem, até me lembrou alguém agora! rs). Daí já se vão 12, 13 anos...

Consegui chegar, com hercúleo esforço, ao final do primeiro capítulo. Confesso que o achei deveras rebuscado para o meu gosto literário na época. Poderia ter lhe dado uma segunda chance. Na verdade, deveria! Mas estávamos em sintonias diferentes naquele momento. Eu havia acabado de descobrir Agatha Christie e o princípio de todo o seu universo lingüístico e construtivo. Ele, por sua vez, tinha seu modus operanti recompensado através do Prêmio Nobel. Logo virou moda, caindo nas graças dos povos de língua portuguesa que ainda não o conheciam. Não que ele precisasse disso. Realmente, não precisava. Mas quem não gosta de ter seu trabalho reconhecido em uma escala tão alta quanto essa?!

Mesmo assim, meu fascínio pelos romances policiais me cegava diante de qualquer outro gênero literário. Pelo menos, quando se tratava das minhas leituras livres, sem qualquer compromisso. E convenhamos, Saramago não é o tipo de leitura que se faz forçadamente. Não pode existir forma eficaz de apropriação através dessa fórmula retrógrada do nosso ensino público (post em breve).

Desde então, durante esses 12, 13 anos, venho adiando esse nosso embate. Mesmo trabalhando a mais de 4 anos numa biblioteca que possui (quase) todas as obras do literato luso, nunca sequer folheei uma de suas obras.

Aí está, confessado em linhas para a eternidade (?!): eu, Agamenon Picolli Leite, paulista, 27 anos, graduando de biblioteconomia (WTF?!), cinéfilo acima de tudo, jamais li (até o fim) Saramago. Mas, como dizem por aí, nunca é tarde demais para se redimir.

José de Sousa Saramago. Ateu, como provavelmente um dia eu também serei, morreu na última sexta-feira. Durante boa parte de sua passagem terrena, teve uma vida parecida com a minha de agora: sem muita emoção e/ou importância. Autodidata, felizmente descobriu a tempo uma maneira de deixar seus passos gravados pelos caminhos desse mundo. A partir daqui, tenho certeza que viveu prazerosamente até o fim.

"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais." (J. S.)


H (nunca é tarde para se tentar)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Momento poesia XXX



Muerte *

¡Qué esfuerzo!
¡Qué esfuerzo del caballo por ser perro!
¡Qué esfuerzo del perro por ser golondrina!
¡Qué esfuerzo de la golondrina por ser abeja!
¡Qué esfuerzo de la abeja por ser caballo!
Y el caballo,
¡qué flecha aguda exprime de la rosa!,
¡qué rosa gris levanta de su belfo!
Y la rosa,
¡qué rebaño de luces y alaridos
ata en el vivo azúcar de su tronco!
Y el azúcar,
¡qué puñalitos sueña en su vigilia!
Y los puñales diminutos,
¡qué luna sin establos, qué desnudos,
piel eterna y rubor, andan buscando!
Y yo, por los aleros,
¡qué serafín de llamas busco y soy!
Pero el arco de yeso,
¡qué grande, qué invisible, qué diminuto!,
sin esfuerzo.

(Federico García Lorca)


H (el vivo)


* Poema publicado, originalmente, no livro “Poeta en Nueva York”, de 1929/30.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dia da saudade



Hoje, dia de finados, longe de ser considerado uma comemoração, para mim é um dia de reflexão, de recordação, dedicado a todos aqueles com quem tive o privilégio da convivência, porém, que por uma fatalidade qualquer, deixaram de existir fisicamente para co-existirem em outro lugar, além de viverem em nossas lembranças.

A primeira vez que fui "convidado" pela D. Morte a sentir falta de alguém foi aos 9 anos. Alguns colegas da escola foram até a minha casa e disseram que um amigo com o qual, quase sempre, voltava para casa, havia morrido num acidente, justamente quando esse voltava da escola.

Eu não sei quanto a vocês, mas, nessa idade, não tinha a mínima noção do que a palavra "morte" significava. Meus pais, reparando que eu não demonstrava estar nem um pouco chocado, resolveram conversar comigo naquele dia sobre isso. Na segunda-feira (tudo aconteceu na sexta anterior), na primeira aula após o ocorrido, fomos todos a escola, porém, a professora resolveu discutir com os alunos o que havia acontecido. Pude perceber nos olhos da professora a emoção que lhe surgiu ao ler o nome desse amigo na lista de chamada.

Ao mudar de cidade, de 1995 a 2001, topei com a D. Morte mais 13 vezes, perdendo familiares (minha bisavó em 1995 e meu avô em 2001) e amigos (inclusive o Michel, em 2001).

Sei que, chamando-a assim de "D. Morte", pode parecer que a considero, que a respeito. Mas não chega a tanto. Apenas sei da sua existência e a julgo merecedora de certa formalidade, nada mais.

Meu avô me disse, certa vez, que o ato de sentimos saudades de alguém denota o quão importante aquela pessoa foi para a nossa formação. Em outras palavras, saudade é sinal da influência do outro em nós.

Por isso mesmo, dedico esse post a todos aqueles que passaram pela minha vida, deixando marcas através de ensinamentos, sorrisos e trejeitos, linguajares e, principalmente, sentimentos. Um dia, espero encontrá-los. Mas, hoje não. Ainda não.

"Por dentro do peito, aqui no lugar onde resguardo meu valente pulsante, sou como uma miscelânea humana, como um Frankenstein [...], sou grato a cada um de vocês porque, se sou o que sou hoje, é devido ao pedaço de cada um de vocês que carrego nesse mesmo peito." [M. F.]


H (It's complicated)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

You're not alone.. never



A década de 1980, alcunhada por muitos (inclusive eu) como “a melhor de toda uma geração”, teve infindáveis características e personagens peculiares. Para os mais saudosistas, poderia citar aqui vários seriados, filmes, movimentos populares, hits e bandas.

Porém, de nada adiantariam. Porque essa década, especificamente essa década, foi palco para, senão o maior, um dos maiores artistas da música pop. Não foi à toa que lhe deram o “título” mais que merecido de Rei do Pop.

Diferentemente de tudo que já tinham surgido até então, ele compunha suas próprias músicas e fazia delas verdadeiros eventos performáticos. Se a intenção era deixar para trás aquela imagem de garotinho raquítico e indefeso, reflexo do seu convívio com os 4 irmãos mais velhos no grupo Jackson Five, ele estava no caminho certo. Mostrou que estava ali para ser mais, muito mais do que qualquer um antes dele.

Se aproveitando da recém criação do canal “jovem” MTV, seus videoclipes foram além de simples ilustrações de suas músicas. Eram produzidos com tal maestria que, por muitas vezes, foram tidos como verdadeiros filmes, tamanha era o valor dos gastos das suas superproduções.

Com o fim da Guerra Fria e a conseqüente nova ordem mundial, perceptível através da globalização, seus discos rodaram o mundo numa velocidade espantosa, batendo recordes de vendas seguidos.

Passada a euforia “Moonwalk”, suas músicas intercalavam um lirismo mais calmo, mensagens de união e respeito para com todos e respostas provocativas quanto sua doença.

É inconcebível que, nessa nossa época repleta de revelações-relâmpago, surgidas tão rapidamente quanto são esquecidas, seres insignificantes que não passam de cópias ocas umas das outras, um ícone como Michael Jackson tenha seu talento comparado com qualquer um. Não, ele não merece isso. Assim como Lady Di, John Lennon, Frank Sinatra, Ayrton Senna, Elvis Presley, entre outros, Michael era muito mais que um réles mortal. Era um gênio. E o era de maneira tão superior e definitiva que, na minha opinião, nunca existiu e nunca existirá alguém capaz de atingir tal nível de talento.

Para mim, podem dizer o que quiserem sobre suas peculiaridades, atitudes grotescas e escândalos sexuais. O Michael Jackson, aquele que tenho como ídolo desde o fim da década de 80, esse Michael Jackson que me fez rir e sonhar tantas vezes com suas músicas e videoclipes, será sempre o melhor artista da música que esse planeta mesquinho viu.

Nascido em 29 de agosto de 1958, Michael Joseph Jackson deixa um legado de 10 álbuns inéditos e muitos relançamentos. Está no Guiness Book com o disco mais vendido de todos os tempos (Thriller). Morreu o artista, o ícone, o mito, o imortal. Mas, que continuará vivo em cada uma de suas canções.


H (There are a better place.. somewhere)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A morte ao alcance de nossas mãos - post convidado


A última quinta-feira (15/01) parecia um dia comum como outro qualquer. Numa grande cidade como São Paulo isso pode ser classificado por muito trânsito, chuva de verão, mais trânsito e algumas barberagens.

Viver numa cidade assim não é fácil. Ainda mais se você não é respeitado no seu direito mais puro: o de ir e vir. Sentir-se como um intruso, alguém sem espaço, sozinho na multidão. Pois bem, todos já devem saber da morte da ciclista Márcia Regina de Andrade Prado. Atropelada por um ônibus na Avenida Paulista em plena hora do almoço.

Agora, imagine o que já era ruim ficar ainda pior. Como naquela frase pessimista "não há nada tão ruim que não possa piorar". A realidade não é nenhum playground. Imaginem o que é ficar exposto durante mais de 4 horas, seu corpo já inerte, os curiosos aos milhares e você ali, incapaz de pedir explicações, ajuda ou, simplesmente, de pedir desculpas por "atrapalhar" o almoço das outras pessoas. Ser mais uma mercadoria, exposta na vitrine da vida.

E isso não é nenhuma novidade. Pode até chocar no momento, por alguns dias. Mas, depois, vira passado, fatalidade, coisa que se esquece com a maior naturalidade. Logo, outra notícia toma seu lugar, uma nova crise, a posse de um "presidentezinho". Enfim, a vida segue. Porque a realidade não é nenhum playground. Porém, o ser humano é ávido por distração.

No final da tarde daquele mesmo 15 de janeiro, algumas pessoas, que não tinham nada de curiosos, organizaram um protesto. Não só pela morte da ciclista Márcia Regina, mas por respeito, por conquista de espaço e convivência pacífica. Mas foi um ato isolado. Logo outra manchete surge e o que foi dito ou feito, fica enterrado. Guardado apenas na memória de quem, assim como eu tem mais do que apenas 2 olhos e 2 ouvidos... para quem também tem boca, cérebro e, principalmente, coração.

A verdade, é que até a nossa vida e, por conseguinte, a morte que nos é destinada, estão banalizadas. "Viver não é preciso; consumir é essencial!"


"E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
"


(Construção, Chico Buarque)


BeKa

* Imagem tirada do blog Different Thinker

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Viradas e dobraduras


Não é que eu tenha medo de morrer. Apenas não quero estar vivo quando acontecer”. Começo esse post com essa frase magnífica do Woody Allen, para ilustrar (ou tentar ilustrar) como nós, seres humanos, demonstramos a nossa preocupação com o dia de amanhã. Porém, antes, para variar, vamos a um flashback:

Ontem, durante uma “mini-sessão bobiça”, ouvimos (não vou citar nomes para não comprometer a integridade física e mental das pessoas envolvidas) do “ser”, num determinado momento da conversa: “... coisas que eu quero fazer antes de morrer...”. Eu não consegui me conter. Ali, de pé, na porta da salinha, tendo aquela sessão extraordinária de bobiça, não pude resistir! Assim, lancei a pergunta: “E você sabe quando vai morrer?”.

Apesar de o comentário ter surtido algumas risadas e certo desconforto para o “ser” (desculpa!), algum tempo depois, durante a aula nada repetitiva da tia, fiquei pensando em como criamos listas ou agendamos eventos para um futuro que nem sabemos se existirá.

Agora pare e pense. Sim, apenas continue lendo e responda mentalmente: quantas vezes você deixou de fazer algo que era cabivelmente capaz naquele momento, para o dia seguinte, para o outro final de semana, para o próximo mês? Quantos filmes você deixou de assistir na semana de estréia, e continuou adiando essa ida ao cinema até ela virar uma visita à locadora? Quantos encontros você desmarcou por motivos banais, repassando (ou não) para uma outra data? Tenho certeza que você respondeu SIM pelo menos duas vezes. Agora continue pensando: quantas vezes você imaginou que não estaria lá, naquela data remarcada fictícia por alguma fatalidade que não pudesse controlar? Isso mesmo. Quantas vezes você imaginou a sua morte? Quando, como, por que, com quem.. essas coisas.. quantas vezes?? Acho que nenhuma, não é?

Mas isso, apesar de funesto, é uma das coisas mais naturais da vida. Afinal de contas, é nossa única certeza. Morremos a partir do momento que nascemos. (Nossa, tá parecendo mais o programa do Dráuzio Varella! rs). Enfim, mesmo sendo essa “certeza-incerta”, é difícil praticar, por exemplo, aquilo que o Renato Russo disse: “.. é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã..”. E é essa dificuldade toda porque vai contra a nossa natureza, contra o nossa sistema de sobrevivência. Lutamos para não morrer e/ou ignoramos a existência da morte porque faz parte do nosso instinto.

Nessas horas (e quando o assunto é esse), me lembro de uma frase do Miéle que, quando perguntado qual seria o seu epitáfio, soltou a pérola: “Aqui jaz, absolutamente contra a vontade, Luis Carlos Miéle”.


H (rindo da morte antes que ela ria de mim)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Momento poesia II

Capa do livro de Job Milton Pereira



Ao último instante


E ela, finalmente, chegou!
Então entrego-me por inteiro,
Pois não sei o que mais verdadeiro:
O que eu era ou o que agora sou.

Peço nesse momento derradeiro
Que cada pessoa que os olhos enxugou
Olhe bem para o sepulcro onde estou
E deixem-me como de Primeiro.

A vida bateu-me a porta
E abriu-me o Portal do Destino,
Lugar de todas as incertezas.

(Por isso, peço:) não quero ouvir nenhum hino,
Para não transformar risos em tristezas;
Algo que ainda é vivo, em coisa morta!



H (A morte começa no nascimento)