sábado, 14 de março de 2009

Deus e o diabo na terra do trânsito


Quinta-feira. Mais um dia lastimável para Adriano*. Como em toda manhã, ele ouve o despertador tocar com um misto de sono e decepção. Sua tentativa diária de enrolar mais alguns minutos na cama fica cada vez mais evidente como um ato de desespero. Um ato que demonstra apenas que, apesar da imensa vontade, ele não comanda sua vida.

O segundo toque do despertador se assemelha a uma voz macabro, chamando-o para o paraíso. Ele levanta ainda de olhos fechados. Se abri-los, sabe que verá esse paraíso imaginário se transformar naquilo que realmente é: o inferno!

Duas horas de viagem em ônibus lotados e vários planos frustrados de fulga depois, e lá está ele naquele emprego enfadonho, tendo que aguentar filhinhos de papai ignorantes, colegas de trabalho folgados até o último fio de cabelo e uma chefe arrogante e mesquinha.

Isso é a rotina. E, depois de passar mais de 9 horas ‘trancafiado’ nesse que poderia ser seu único inferno terreno, Adriano se vê ‘livre’ para ir até a faculdade e picaretar um pouco. A aula seria curta. Antes de se dar conta, ele já estaria em casa. Ele passa pela recepção do prédio onde trabalha com um grande sorriso nos lábios. Quem não o conhecesse bem, diria que é a pessoa mais feliz do mundo. Ledo engano!

Quarenta minutos depois e lá está ele, ainda esperando pelo ônibus que o levaria a faculdade, com uma cara que poderia resumir o termo mal-humor em qualquer dicionário ilustrado. Assim que o dito cujo chega, começa aquela briga por ‘um lugar ao sol’. De preferência, na janela. E ele consegue. Apesar de cansado de tanto esperar, se sente realizado. Liga seu MP3 e tira um cochilo. Sabe que será coisa rápida, porém, nessas horas, os olhos ignoram qualquer relógio criado pelo homem e simplesmente se fecham. Adriano só desperta quando a pilha acaba e a música pára de tocar. A única solução é o celular, que também tinha algumas músicas na memória.

Mas, e agora ele repara, por quê o ônibus ainda está no meio do caminho? No relógio do celular ele confere que já faz uma hora que subiu no ônibus! Como pode? Trânsito em plena quinta-feira!? Essa cidade só pode ser ‘movida’ a trânsito!

Ele já nem consegue mais se concentrar na música. Logo, ele vê várias pessoas nas calçadas, provavelmente desceram pelo caminho, correndo como se fugissem de algo. Adriano quase que instintivamente olhou para trás para ver se alguma onda gigante ou animal pré-histórico estava atacando a cidade. Seria um alívio! Mas não. Aquelas pessoas estavam apenas tentando recuperar o tempo perdido, tempo que não volta mais.

Seu ônibus o deixou na faculdade exatamente duas horas e meia depois de pegá-lo no trabalho! Assistir quarenta minutos de aula seria o mínimo para terminar um dia que começou horrível e seguiu essa receita até aquele momento.

Chegou em casa acabado. Dores nas costas, pernas e pés. Tudo isso para quê? Para levar uma vida digna, porque um idiota há milênios atrás disse que só ‘o trabalho dignifica o homem’... faça-me o favor! Comer e, principalmente, descansar, ficam em segundo plano então?!

Hoje, no aniversário de nascimento do grande cineasta brasileiro Glauber Rocha, faço essa pequena homenagem, na forma do título do post, e lhe digo (onde quer que ele esteja): parabéns Glauber, você está muito melhor que nós todos! “Deus e o diabo na terra do sol”?? Por que não gravou “Inferno na terra da garoa”?! Tenho certeza que seria um sucesso!


H (trabalhar é ruim; trabalhar e estudar é péssimo; mas perder 2h30 no trânsito de São Paulo é o fim!)

* nome fictício.

Um comentário:

The Owl disse...

É foda mesmo. A condução oprime as classes trabalhadoras. rs