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terça-feira, 18 de maio de 2010

Top 10 filmes (não americanos) que todo cinéfilo deveria ver - 2ª parte


Não faz muito tempo, uma amiga me perguntou qual seria meu filme favorito. Diante da minha expressão de dúvida, ela logo se convenceu da gafe: “nossa, mas que pergunta, não é mesmo?! Afinal, deve ser muito difícil para um cinéfilo ter um filme favorito”.

Realmente, é muito difícil. Principalmente quando nos acostumamos a ver de tudo e reparar em detalhes que um mero olho-amador deixaria passar batido.

Qualquer cinéfilo de verdade não cria uma lista de filmes favoritos. Cria várias! E não somente boas preferências, mas, também, sobre destaques imperceptíveis à primeira vista. É um ato deveras complicado, já que envolve inúmeras variáveis que, por sua vez, vão muito além do “gosto desse, não gosto daquele”.

“Gosto não se discute”, já diz o dito popular. Apesar de ser composto quase basicamente de influências exteriores, ele não é aberto a debates porque faz parte da individualidade de cada um e, como tal, tem o direito de ser respeitado.

Assim sendo, um cinéfilo não se baseia em gostos. Ele formaliza preferências, influências, citações, enfim, conecta situações. Afinal, um filme surge como se fosse uma briga: ela só acontecerá se ambas as partes assim a quiserem. Dessa forma, o filme se apresenta para transmitir uma mensagem. Porém, essa só será possível se você estiver no mesmo momento dessa produção.

Está aí o motivo para explicar melhor a complexidade que compõe o gosto por um filme.

Sei que certa vez, nos primórdios desse mundo, levantei uma lista de 50 filmes que julguei serem meus favoritos. Admito que pequei na escolha de alguns. E outros, pelo simples fato do passar do tempo, caíram por terra, dando lugar a produções que vi ultimamente. Foi um trabalho ousado e que não penso em repetir tão cedo.

Contudo, por não conseguir ficar longe de uma lista, formalizei esse “Top 10 filmes (não americanos) que todo cinéfilo deveria ver” como parte de uma lista substituta para a citada anteriormente. E, sem mais delongas, assim como prometido, segue o pódio da tal lista:

3) Kagemusha, a sombra do samurai (Kagemusha) – Akira Kurosawa, Japão, 1980.




Nenhum outro diretor foi tão imitado e serviu de inspiração para a categoria do que Kurosawa. É outro diretor do qual indico toda a filmografia. Kagemusha é o que mais gosto porque o considero mais inspirador. Como a frase que define o temível dono do feudo Takeda: “Rápido como o vento, silencioso como a floresta, poderoso como o fogo, imutável como as montanhas”. Nota: 9,3


2) Os incompreendidos (Les quatre cents coups) – François Truffaut, França, 1959.




Truffaut é, sem sombra de dúvida, o melhor diretor francês de todos os tempos. Ousou iniciar uma carreira “do zero” apenas para ilustrar aos demais diretores franceses da época que era sim possível mudar a forma como os filmes do país eram conduzidos. Os incompreendidos foi o primeiro desafio que o, até então, crítico de cinema assumiu. E o filme está nessa lista por ser aquele onde se encontra a maior parte da essência criativa de Truffaut, que depois se “espalharia” pelas suas demais produções. Nota: 9,5


1) Fanny e Alexander (Fanny och Alexander) – Ingmar Bergman, Suécia, França e Alemanha, 1982.




Imaginem condensar toda a obra de um diretor em pouco mais de três horas de um filme em que os personagens principais não têm mais do que 10 anos de idade. Difícil de acontecer, não é?! E se esse diretor for um dos mais admirados e respeitados de todos os tempos? Provável, não?! E que tal Ingmar Bergman? Ah, agora sim! Ele foi um gênio. Revisitando os mesmos assuntos, porém, sempre de maneiras diferentes. Influenciado pelo cinema francês das décadas de 1940/50, seus primeiros filmes foram experimentos. Aos poucos, ajustados aqui e ali até a perfeição: Fanny e Alexander. Não preciso dizer mais nada. Nota: 9,8

Até o próximo..


H (corta!)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Cinéfilo de verdade


Todo cinéfilo que faz jus ao termo pelo qual é chamado (e não só porque é “cool” e/ou está na moda!), algum dia já se rendeu ao cinema europeu como a forma de expressão mais soberba, influente e paradigmática que existe. François Truffaut, Jean Luc Godard, Jean-Jacques Annaud, na França; Sergei Eisenstein, na Rússia; Alfred Hitchcock, na Inglaterra; Pedro Almodóvar, na Espanha; Ingmar Bergman, na Suécia, entre tantos outros talentosíssimos expoentes.

E isso não se aplica apenas a nós, reles mortais, adoradores da sétima arte. Leia qualquer entrevista de diretores americanos (sul e norte) e você, certamente, encontrará a razão de 8 a cada 10 tendo como inspiração (e admiração) algum diretor do Velho Continente.

Comigo, não foi muito diferente. Claro que eu gosto do cinema norte-americano. Com raras exceções, gosto do jeito besteirol com que alguns diretores retratam o próprio cotidiano ou imaginam (na maioria das vezes, erradamente) o cotidiano alheio. Mas eles ainda não conseguiram transcender minha paixão pela expressão fílmica como fez o cinema europeu.

Essa paixão teve início em uma época onde os livros já se tornavam, para mim, obsoletos pontos de fuga. Minha mente carecia de mais movimento, mais rispidez. Minha curiosidade urgia pela criatividade alheia. Uma criatividade tocante, porém, dissimulada. Algo nítido e, ao mesmo tempo, que fosse recluso à primeira vista.

Para tanto, assim como um aprendiz, precisei de um mentor para me mostrar o caminho certo da ilusão cinematográfica. Tomei lições e, com elas, doses homeopáticas do que havia de mais brilhante e perturbador não só na produção européia, mas também na terra do Tio Sam. Infelizmente, não aproveitei ao máximo todo esse potencial, desperdiçando-o com películas pífias e monótonas, repletas de incongruências e risos fáceis.

Contudo (graças ao trabalho que tenho hoje), revendo os imortais dessa fase (que, agora, é mais do que convencional alcunhar de “clássicos”), percebo que apenas os ícones europeus foram capazes de me proporcionar transbordamentos emocionais tais como eu estava sedento na minha adolescência. Filmes inconstantes. E não estou falando do ponto de vista do roteiro! Não, nesse quesito eles são estupendos. Quando falo de inconstância, refiro-me a maneira quase metamórfica com que nos abordam, proporcionando-nos visões distintas correspondentes ao nosso prisma analítico.

Num próximo post eu faço uma lista dos meus filmes europeus favoritos. Agora preciso é repensar na minha lista de 50 melhores...


H (cinéphile)


* Imagem retirada daqui

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Diretores - Ingmar Bergman


O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico.” (Jean-Luc Godard, cineasta francês)

Ernest Ingmar Bergman, talvez o mais influente dos diretores europeus, nasceu na cidade de Uppsala, Suécia, em 14 de julho de 1918. Criado no seio de uma família protestante, desde criança, Bergman demonstrava uma predileção por peças teatrais, principalmente pelas adaptações escolares e o teatro de marionetes.

Aos 18 anos, ingressa na Escola Superior de Estocolmo, onde seu interesse pelo teatro mostrou-se imperturbável. Logo após se formar, conseguiu um lugar como diretor-assistente no Teatro Dramaten e lá ficou até 1942. Foi nesse período que dirigiu sua primeira peça, “Morte de Kasper” (1941). Também são dessa época seus primeiros roteiros, escritos para os mais importantes cineastas suecos.

Seus primeiros filmes foram influenciados por Marcel Carné (diretor francês) e pelo realismo poético francês. O próprio Bergman se considerava um diretor sem estilo e que copiava os que admirava. Não demorou muito para tornar-se um renovador do cinema e foi um dos primeiros a abordar o tema da incomunicabilidade do casal como ponto central da trama.


Contudo, foi apenas em meados da década de 1950 que conseguiu o reconhecimento merecido, depois que a comédia “Sorrisos de uma Noite de Verão” (1955) venceu o prêmio do júri no Festival de Cannes. A partir daí, sua obra adquiriu mais consistência e, consequentemente, fama. Era um diretor cultuado não só por seus compatriotas, como também por todos na Europa.

Depois de “Sorrisos...”, Bergman concluiu duas de suas mais importantes e conhecidas obras na seqüência, “O Sétimo Selo” (foto acima) e “Morangos Silvestres”. Com eles, tornou-se célebre. “O Sétimo Selo” (meu filme favorito dele.. rs) conta a história de um cavaleiro medieval que joga xadrez com a Morte para tentar salvar a sua vida. Cínico, não acreditava na sua salvação nem da humanidade, no caso, destruída pela peste negra e pelo obscurantismo da Igreja, que queimava bruxas e atormentava a todos com a Inquisição. Poucos momentos são mais belos quanto a cena final, um balé macabro em que todos, de mãos dadas, seguem guiados pela morte para o fim metafísico.

Em seu universo criativo, além do universo feminino, a presença de Deus, as teorias de Jung, descendo às profundezas da condição humana, leva o público a se questionar sobre assuntos até então renegados pelos demais gêneros cinematográficos. Seus trabalhos lidam geralmente com questões existenciais, como a mortalidade, a solidão e a fé (e, porque não, sua descrença). Suas influências literárias, assim como era de se esperar, provêm do teatro: Henrik Ibsen e August Strindberg.

Em abril de 1976 exilou-se voluntariamente por causa de uma perseguição do fisco sueco. Estabeleceu-se em Munique e trabalhou no Residenzteather. Ao mesmo tempo, convidado a ir até Hollywood, realizou uma de suas obras mais fracas, “O Ovo da Serpente”, hoje um de seus filmes mais cultuados. De volta ao seu país, fez a mais ambiciosa produção de sua carreira, uma espécie de ''enciclopédia'' bergmaniana: ''Fanny e Alexander'' (foto abaixo). Neste momento declarou terminada sua obra para o cinema, decidindo trabalhar só para o teatro.


Ao longo de seus mais de 40 filmes, Bergman voltou várias vezes aos mesmos temas, porém, nunca da mesma forma. Seguiu fazendo obras-primas, uma atrás da outra, todas em preto-e-branco. Segundo Bergman, a preferência pelo contraste devia-se ao fato de que os sonhos eram em preto-e-branco e ele filmava seus filmes como sendo pesadelos existenciais. Até que descobriu a cor e mais uma obra-prima surgiu: "Gritos e Sussurros" (1972), a ode em vermelho às mulheres.

Vencedor de três Oscar® na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (“A Fonte da Donzela”, 1959; “Através de Um Espelho”, 1961; e “Fanny e Alexandre”, 1982) e indicado outras três vezes ao Oscar® de Melhor Direção, recebeu, em 1971, o prêmio Irving G. Thalberg Memorial Award por sua inestimável contribuição à sétima arte. Faleceu em 30 de julho de 2007, na sua residência, na Ilha de Faro, de causas naturais. Foi, sem dúvida alguma, um dos cineastas que mais contribuiu para fazer o cinema ser conhecido como forma de expressão artística.

Algumas de suas obras-primas que eu recomendo:


H (desculpe-me, mas é meu diretor favorito)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Diretores - Glauber Rocha



"Continuo fechado com minhas posições de um cinema terceiro-mundista. Um cinema independente do ponto-de-vista econômico e artístico, que não deixe a criatividade estética desaparecer em nome de uma objetividade comercial e de um imediatismo político." [G. R.]

Glauber de Andrade Rocha veio ao mundo no dia 14 de março de 1939, na cidade de Vitória da Conquista, Bahia. Nasceu, como muitos historiadores dizem, de um paradoxo: Adamastor Bráulio (nunca pensei que eu fosse escrever essa palavra!) Silva Rocha, seu pai, era católico não-praticante; sua mãe, Lúcia Mendes de Andrade, era protestante.

E, desde cedo, é possível perceber a influência que dona Lúcia exerceu sobre o pequeno garoto. Diferentemente das demais mulheres interioranas daquela época, ela gostava de ler de tudo um pouco. Foi numa dessas leituras, mais precisamente ao ler a biografia do químico alemão Johann Rudolf Glauber (1604-1670), famoso por descobrir o sulfato de sódio, é que surgiu a inspiração para o futuro nome de seu filho. Temeroso com o período de efervescência anti-germânica que se anunciava, Adamastor foi contra a escolha, imaginando como seria a vida da criança carregando o nome de um alemão. Contudo, acabou cedendo aos pedidos da esposa.

Alfabetizado pela mãe, também foi levado a seguir a religião dessa. Logo se mostrou uma criança curiosa e precoce, sempre disposto a ouvir rádio ou ler algum livro da grande coleção da mãe. Aos 9 anos, mudou-se com a família para Salvador. Nessa época, começou a escrever pequenas histórias e esboços de peças de teatro, as quais encenou, posteriormente, quando iniciou seus estudos no colégio Dois de Julho.

Gostava muito de ouvir a conversa dos adultos, prestando atenção às palavras pronunciadas. Por ter nascido em uma cidade do interior, identificava-se com as coisas simples, além das tradições e lendas do sertão. Histórias de jagunços e cangaceiros eram suas favoritas.

Na adolescência, já bastante integrado a vida religiosa imposta pela mãe, Glauber também começou a revelar outra característica marcante de sua personalidade: a vocação política. Nitidamente mais versado que os meninos da sua idade, tinha como gosto entrar em discussões sobre o assunto com os mais velhos. Outro vício eram as sessões vespertinas nos cinemas da cidade de Salvador.

Em 1959, iniciou seus estudos na Faculdade de Direito da Bahia, largando dois anos depois para começar uma breve carreira jornalística que, hora ou outra, tendenciava para sua paixão pelo cinema. Tentou pregar novos pensamentos para a arte cinematográfica, algo que a transformasse num veículo de transmissão da realidade social, renegando às influências pouco prestativas vindas do cinema norte-americano.

Nesse ponto, Glauber Rocha se assemelha muito a François Truffaut: depois de filmar alguns curtas metragens e fundar sua produtora, ele “caiu” na direção do filme “Barravento” (1961). O filme, como o próprio Glauber definiu, é “um ensaio cinematográfico, uma experiência de iniciante”.

Desde o início do período de Ditadura Militar, Glauber Rocha era visto como um elemento subversivo. A relação entre eles (Glauber e a Ditadura) perdurou até que, em 1971, ciente dos perigos que corria, o cineasta decidi partir para o exílio. Nessa época, Glauber já era um diretor admirado e conhecido em todo o mundo, fato devido, principalmente as premiações conquistadas no Festival de Cannes com os filmes "Terra em Transe" (1967) (prêmio do júri) e "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro" (1968) (prêmio de melhor diretor).

Contudo, com o exílio (passou por alguns países europeus e africanos, por Cuba e Estados Unidos), parece ter perdido suas raízes. Retorna ao Brasil elogiando o governo militar, fazendo reportagens para a televisão e realizando um filme desastroso, sem pé nem cabeça ("A Idade da Terra", de 1980). Em quanto esteve fora do Brasil, dirigiu pequenas produções, com destaque para o filme "Der Leone Have Sept Cabeças" (1970), rodado no Zaire.

Seus filmes são uma mistura de folclore e tradições nacionais, com textos políticos e religiosos. Na maioria de suas produções, percebe-se uma nítida relação com o antigo teatro português (Autos).

Já vivendo em Sintra, Portugal, enquanto se preparava para iniciar as gravações de um novo filme, adoece, vitimado por uma broncopneumonia. Duas semanas depois, é transferido para uma clínica no Rio de Janeiro, onde vem a falecer em 22 de agosto de 1981. Considerado, hoje, um dos principais cineastas que esse país já teve, Glauber Rocha foi um diretor controvertido e incompreendido no seu tempo, além de ter sido patrulhado tanto pela direita como pela esquerda brasileira. Ele tinha uma visão apocalíptica de um mundo em constante decadência e toda a sua obra denotava esse seu temor.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:


H (orgulho de ser brasileiro!)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Diretores - George Lucas


Nascido em 14 de maio de 1944, George Walton Lucas Jr., foi um jovem aficionado por corridas de automóvel. Até que, em meados de 1962, ele sofre um grave acidente de carro que o deixa de molho por quase um ano.

Seguindo os conselhos do pai, o jovem Lucas usa esse tempo avulso para pensar em coisas menos “perigosas” para fazer no futuro. Assim que se sente recuperado, começa seu curso de Antropologia. A mescla de optativas na área de Artes, logo desperta em Lucas o interesse pelo universo cinematográfico.

Juntamente com um amigo, John Plummer, George Lucas produz alguns curtas-metragens. Querendo uma oportunidade nesse ramo, os dois jovens viajam até São Francisco, Califórnia, atrás do Canyon Cinema, um projeto de Bruce Baillie que recrutava promessas da área de cinema.

E foi durante um de seus trabalhos que George Lucas conheceu aquele que viria a ser seu primeiro mestre nessa área: o diretor Haskell Wexler. Ele ficou impressionado com os ângulos que Lucas utilizava para filmar uma corrida de motocross.

Seguindo o conselho de Wexler, Lucas matriculou-se no curso de cinema da Universidade da Califórnia do Sul. Ali, fez inúmeros amigos, inclusive Steven Spielberg. Suas novas ideias na parte de produção e edição lhe renderam, no final do curso, uma bolsa para estagiar na Warner Bros. Mas isso ficou ainda mais interessante quando ele foi informado que poderia escolher em qual filme gostaria de estagiar. George Lucas nem pensou muito e decidiu-se por uma produção de um diretor que ainda estava engatinhando: “O Caminho do Arco-Íris”, de Francis Ford Coppola.

Coppola logo reparou no potencial do jovem Lucas e, assim que esse concluiu sua graduação, lhe propôs fazer parte da fundação do estúdio American Zoetrope, companhia que tinha por objetivo ajudar os realizadores a criar filmes de forma livre, fora do circuito opressivo de Hollywood. O próprio Lucas viu aí uma chance de executar um projeto de um longa-metragem que não havia concluído durante sua graduação. Assim, em 1970, surge sua primeira aventura ficcional-científica: “THX 1138”. O filme, hoje tido como cult, não foi um sucesso na época. Porém, serviu para lhe abrir as portas para seu segundo filme: “American Graffiti” (1973), mais voltado para as corridas de automóveis e um dos grandes sucessos da década.

Contudo, a maior contribuição de George Lucas ao universo cinematográfico deve-se a concepção da dupla trilogia “Star Wars”. Numa época em que os recursos visuais e os efeitos especiais eram muito limitados, George Lucas se viu encurralado. Suas ideias iam muito além do que qualquer realizador já havia imaginado até então. Ele tinha em mente realizar um mega épico de batalha estelar que mesclasse influências de clássicos westerns e alguns filmes de seu diretor favorito (Akira Kurosawa). Contando com a ajuda de amigos como os já citados Coppola e Spielberg, George Lucas não viu outra saída senão criar sua própria companhia (LucasFilm) com um ramo específico para efeitos especiais (Industrial Light & Magic).

Aqui vale ressaltar como aconteceu essa “revolução”: até esse período, todo filme de sci-fi que quisesse fazer uso de naves e/ou ambientes interplanetários, utilizava uma maneira de filmagem muito rústica, com uma única câmera parada enquanto os objetos se movimentavam a sua frente. George Lucas achava isso tão pré-histórico quanto fazer fogo com duas pedras. Sua proposta era fazer o inverso do “natural”: os objetos ficariam parados diante de um fundo verde enquanto várias câmeras estariam se movimentando, permitindo as mais variadas tomadas. Durante a edição, eram incluídos luzes, fundos e efeitos sonoros, tudo para garantir uma experiência emocionante, nunca antes conseguida.

Mesmo assim, prevendo que a “indústria” de efeitos especiais avançaria ainda mais nas próximas décadas, Lucas tomou outra decisão inusitada: começou as gravações de sua dupla trilogia pela parte final, deixando os cinéfilos doidos por mais de vinte anos, atrás de informações sobre o surgimento de um dos vilões mais admirados de todos os tempos.

Indicado duas vezes ao Oscar® na categoria de Melhor Diretor, George Lucas recebeu, em 1992, o prêmio Irving G. Thalberg, por sua inestimável contribuição à sétima arte, como descrito nos parágrafos anteriores.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:


H (o próximo é brasileiro!)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Diretores - George Cukor


"Cukor [George] é um dos meus realizadores preferidos. Era um mestre ao dirigir mulheres." (Pedro Almodovár)

George Dewey Cukor nasceu em Nova Iorque, Estados Unidos, em 7 de julho de 1899. Filho único do casal de imigrantes húngaros Victor e Helen Cukor, teve seu nome inspirado no herói hispano-americano George Dewey.

Assim como o pai, pretendia seguir os passos da advocacia. Porém, em 1917, foi recrutado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Voltando com a mente mais desanuviada, para desgosto do pai, largou a faculdade de direito e embarcou na empolgante vida do teatro. Começou como assistente de palco, em Chicago. Retornando a Nova Iorque, ficou oito anos mesclando trabalhos como ator e diretor teatral.

Essa sua versatilidade logo o levou a Broadway, onde dirigiu a adaptação do romance “O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald. A peça foi um sucesso arrasador. E, numa época de transição do cinema mudo para o falado, os produtores procuravam justamente por diretores que tivessem essa experiência em lhe dar com interpretações e palavras.

Catapultado para o universo hollywoodiano no princípio da década de 1930, Cukor teve seu primeiro destaque na direção em 1933, com o filme “Jantar às oito”, que contava com um grande elenco da época. Muito responsável e sempre capaz de produzir ótimos filmes dentro de seus limites orçamentários, George Cukor se tornou o diretor mais desejado pelos produtores de Hollywood.

Por isso, Irving Thalberg, o poderoso chefão da Metro Goldwyn Mayer, não vacilou em chamá-lo para dirigir “Romeu e Julieta” (1936), superprodução estrelada por Norma Shearer (mulher de Thalberg) e Leslie Howard. Apesar da idade um pouco avançada do casal (à beira dos quarenta), o filme surpreendeu a todos.

David O. Selznick, um dos maiores produtores dos clássicos daquela época, convidou Cukor para dirigir aquele que viria a ser o maior sucesso da sétima arte: “... E o vento levou”. Aqui, cabe ressaltar uma das maiores peculiaridades de George Cukor: a atenção quase que exclusiva dirigida a seu elenco feminino. Fazia questão de dar palpites sobre o figurino, maquiagem, além, é claro, da interpretação diante das câmeras. Segundo o diretor, eram elas as responsáveis por fazer a química cinematográfica fluir. Porém, esse seu modo de agir, perturbava muitas pessoas. E, uma delas foi o galã de “... E o vento levou”, Clark Gable que, dizem alguns críticos, foi o principal “semeador” da discórdia entre diretor e produtor do filme. Depois de três semanas de filmagens, Cukor foi substituído por Victor Fleming, não tendo seu nome sequer mencionado nos créditos.

Contudo, esse incidente não abalou a sua carreira. Embora fosse um artesão obediente às regras da indústria cinematográfica e dono de um senso ético que o levava a ser fiel ao roteiro sem se preocupar com o brilho fácil, Cukor fez algumas criações ousadas para os padrões de Hollwyood. Foi o primeiro diretor a relacionar a sexualidade feminina como um dos temas centrais de uma trama (“A vida íntima de quatro mulheres”, de 1962, e “Ricas e famosas”, de 1981, seu último filme).

Em quase 60 anos como diretor, George Cukor nos agraciou mais de 40 belas e riquíssimas produções. Indicado 5 vezes ao prêmio máximo do cinema, recebeu a estatueta dourada por aquele que, até hoje, é considerado seu melhor trabalho: “Minha bela dama”, de 1964. Um musical insuperável em todos os detalhes que arrematou lágrimas e suspiros por onde foi exibido.

Já afastado de qualquer pretensão cinematográfica, o “poeta da alma feminina”, como diziam muitos críticos, morreu em 24 de janeiro de 1983, num hospital de Los Angeles, vítima de um enfarte.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:

* Quatro Destinos (1933)
* A Dama das Camélias (1936)
* Núpcias de Escândalo (1940)
* Fatalidade (1947)
* A Costela de Adão (1949)
* Nascida Ontem (1950)
* A Vida Íntima de Quatro Mulheres (1962)
* Minha Bela Dama (1964)
* Ricas e Famosas (1981)


H (precisando de tempo)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Diretores - Frank Capra



Apenas os audazes deveriam fazer filmes, porque apenas os que têm força moral podem falar às pessoas durante duas horas e na escuridão.” [F. C.]

Nascido como Francesco Rosario Capra, em 18 de maio de 1897, no vilarejo de Bisacquino, Itália, era o sexto filho de um casal de camponeses. No ano seguinte, seu irmão mais velho, Ben, já na casa dos 16 anos, sai da Itália em busca de novos desafios. A família Capra fica sem notícias suas até que, em abril de 1903, recebem uma carta de Ben, dizendo que estava em Los Angeles, Estados Unidos. O pai, Salvatore, resolve então partir com toda a família para a Califórnia.

Frank, com seis anos, passou a estudar e vender jornais na rua para ajudar na renda da família. Durante os estudos, Frank ainda trabalhou como bedel em sua escola, tocador de banjo em um bistrô e encartador no Los Angeles Times. Em 1918, formou-se em engenharia química. Mas não conseguiu emprego em sua profissão e, depois de vagar pelo estado em diversas ocupações, soube que o Ginásio Israelita do Golden Gate Park, em San Francisco, seria transformado em um estúdio cinematográfico. Ele começou como técnico de um pequeno laboratório, para depois tornar-se roteirista de comédias para os dois maiores produtores do gênero: Hal Roach e Mack Sennett.

Seu contato com os dois possibilitou que, anos depois, ele fosse contatado por Mack Sennett para trabalhar com um comediante que então despontava: Harry Langdon. Nessa época, Frank co-escreveu e dirigiu, entre outros, ‘’O Homem Forte’’ (1926), considerado o melhor filme de Langdon. Porém, logo foi despedido pelo comediante, temeroso que o talento do jovem cineasta ofuscasse o seu.

No final da década de 1920, Harry Cohn, um dos donos da então desconhecida Columbia Pictures, escolheu o nome de Capra em uma lista de diretores desempregados apenas por intuição, esse sendo considerado o ponto inicial da sua estupenda carreira. Seus primeiros anos na produtora foram marcados por impulsionar a carreira da atriz Barbara Stanwyck, e pelo início da associação com Robert Riskin, roteirista por trás de alguns dos maiores clássicos do cineasta.

Sua temática recorrente era uma combinação de comédia e drama; a exaltação ao homem comum, cujo bom caráter prevalece sobre a corrupção e as armadilhas do sistema. Essas fábulas populistas, confiantes na democracia dos Estados Unidos, eram particularmente eficientes para a sociedade americana dos anos 30 e 40, abalada pela Grande Depressão e pela guerra.

Após a Segunda Guerra, Capra fundou a Liberty Films, juntamente com os diretores William Wyler e George Stevens, e o produtor Samuel Briskin. Apesar de contar com dinheiro da poderosa (na época) MGM nos seus primeiros anos, a promissora produtora não durou muito: em 1950, depois de fracassos de bilheteria como “A Felicidade Não se Compra” e “Sua Esposa e o Mundo”, ela foi vendida para a Paramount.

Na década de 1950, já deixando a sétima arte um pouco de lado, Frank Capra também se dedicou a televisão, produzindo alguns programas científicos. Seu último filme (na verdade, uma refilmagem), “Dama por um dia”, foi lançado em 1961. Em 1971, publicou sua autobiografia (“The Name Above the Title’’) e, em 1982, recebeu do Instituto Americano de Cinema um de seus três prêmios pela carreira, cujos melhores filmes são “obras-primas de timing e organização’’, como descreveu o crítico Leslie Halliwell.

Alguns vêem Capra como um cineasta de filosofia simplista e otimismo ingênuo, mas criticá-lo por tais motivos é negar uma das próprias razões de ser do cinema (e de qualquer cinéfilo, diga-se de passagem). E quando se fala em divertimento (e por que não, esperança), ele tem poucos paralelos. Seus filmes permanecem entre os maiores entretenimentos da história da sétima arte.

Responsável pelo primeiro filme a ganhar os 5 principais prêmios do Oscar® (Filme, Diretor, Roteiro, Ator e Atriz), “Aconteceu Naquela Noite”, de 1934 (os outros dois foram “Um Estranho no Ninho”, de 1975, e “O Silêncio dos Inocentes”, de 1991), e vencedor de 3 prêmios como Melhor Diretor, Frank Capra faleceu em 3 de setembro de 1991, de ataque cardíaco enquanto dormia.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:

* Aconteceu Naquela Noite (1934)
* O Galante Mr. Deeds (1936)
* Do Mundo Nada se Leva (1938)
* A Mulher Faz o Homem (1939)
* Adorável Vagabundo (1941)
* A Felicidade Não se Compra (1946)


H (“Um pressentimento é a criatividade tentando lhe dizer algo.” [F. C.])

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Diretores - François Truffaut



"Expor roupa suja ao público, por meio da arte, nunca leva a uma obra-prima". [F. T.]

François Truffaut nasceu na cidade de Paris, em 6 de fevereiro de 1932. Filho de Roland Lévy e Jeanine de Montferrand, foi criado pelos avós maternos, já que a mãe o tinha como filho bastardo. Foi a avó quem despertou no menino a paixão pela literatura e música. Com sete anos, François viu o primeiro filme no cinema ("Paradis perdu", de Abel Gance).

Aos 10 anos, após perder a avó, foi morar com a mãe, que estava casada com Roland Truffaut, um arquiteto católico. Este acabou registrando o garoto com o seu sobrenome. Rechaçado tanto pelo pai adotivo quanto pela mãe, seu espírito rebelde transformou-o em um mau aluno na escola, levando-o a cometer alguns atos de delinqüência, como pequenos furtos. Naquele tempo, François Truffaut costumava matar aula para assistir a muitos filmes secretamente. A paixão pelo cinema fez o jovem Truffaut largar os estudos e fundar, em 1947, um cine-clube, chamado "Cercle cinémane".

Apesar de modesto, seu cine-clube acabou por atrair a atenção do escritor e crítico de cinema André Bazin. Este tornaria-se uma espécie de "mestre" para François. Sua influência na vida de Truffaut foi decisiva. O jovem tornou-se autodidata, esforçando-se para ver três filmes por dia e ler três livros por semana. Ele até chegou a fazer um acordo com o pai adotivo, que lhe custearia despesas derivadas de sua vida cinéfila. Em troca, Roland Truffaut exigiu que François arrumasse um emprego estável e abandonasse o seu cine-clube de vez. Mas o garoto descumpriu o acordo, e Roland Truffaut internou-o em um reformatório juvenil e passou sua custódia para a polícia.

Quando Truffaut completou 18 anos, Andre Bazin o contratou como seu secretário pessoal. Bazin continuou a lhe dar a formação adequada em cinema, introduzindo-o no "Objectif 49", um seleto grupo de jovens estudiosos do novo cinema da época, como Orson Welles e Roberto Rossellini. Em abril daquele ano (1950), François Truffaut foi contratado como jornalista pela revista “Elle” e passou a escrever seus primeiros textos como crítico de cinema.

Em 1953, Bazin ajudou Truffaut a entrar para sua nova revista, “Cahiers du cinéma”. Sua participação nessa publicação foi de suma importância para o desenvolvimento da sua famosa "Politique des auteurs" (teoria autoral, em português). Neste conceito, o filme é considerado uma produção individual, como uma canção ou um livro. Truffaut defendia que a responsabilidade sobre um filme dependia quase que exclusivamente de uma única pessoa (em geral o diretor).

A "Politique des auteurs" foi a base para o surgimento de um movimento que revolucionaria o cinema francês. Criada por jovens cineastas franceses, a Nouvelle Vague defendia tanto a produção autoral como também uma produção intimista e a baixo custo. Porém, havia uma dúvida: será que um crítico era capaz de fazer um filme? Truffaut estava disposto a provar que sim. Em 1956, foi assistente de produção de Rossellini e, no ano seguinte, fundou sua própria companhia de cinema, a “Les films du Carrosse”.

Contudo, apenas no ano seguinte, quando se casou com Madeleine Morgenstern, filha do rico distribuidor Ignace Morgenstern é que Truffaut conseguiu garantir plena independência artística-financeira para os seus trabalhos.

Em 1973, um de seus maiores sucessos, “A Noite Americana”, vence o Oscar® na categoria de Filme Estrangeiro. Quatro anos depois, atua com perfeição no filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, do seu amigo e diretor Steven Spielberg.

Um dos fundadores do movimento Nouvelle Vague e um dos maiores ícones da história do cinema do século XX, Truffaut conseguiu conciliar um grande sucesso de público e de crítica na maior parte das suas produções. Os temas principais de sua obra foram as mulheres, a paixão, mas, principalmente, a infância. Muito recorrente em seus filmes, Antoine Doinel, um alter-ego do diretor, tornou-se uma de suas marcas registradas.

Em quase 25 anos de carreira como diretor, Truffaut dirigiu 26 filmes. Começou a escrever sua autobiografia, juntamente com seu amigo Claude de Givray, porém, devido a problemas de saúde, não conseguiu concluí-la. Faleceu em 21 de outubro de 1984, na cidade de Neuilly-sur-Seine, França, vítima de um tumor cerebral, causado pelo vício do cigarro.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:

* Os Incompreendidos (1959)
* Jules e Jim (1962)
* Fahrenheit 451 (1966)
* A Noiva Estava de Preto (1967)
* Beijos Proibidos (1968)
* O Garoto Selvagem (1970)
* A Noite Americana (1973)
* O Homem que Amava as Mulheres (1977)
* O Último Metrô (1980)
* De Repente, Num Domingo (1983)


H (hoje, dia mundial do cinema.. em breve, post especial!)

sábado, 24 de outubro de 2009

Diretores - Francis Ford Coppola



"Steven Spielberg e eu somos os únicos cineastas que podemos fazer o que realmente queremos. Eu, porque tenho sorte com os negócios, e Steven Spielberg porque é um gênio." [F. F. C.]

Nascido na cidade de Detroit, em 7 de abril de 1939, no seio de uma família ítalo-americana, teve seu nome do meio escolhido como uma homenagem "indireta" ao empresário Henry Ford, já que nasceu no hospital que leva o nome desse.

Aos nove anos, contraiu poliomielite. Passou boa parte da sua infância resguardado em uma cama. Tinha como principais companhias a TV e uma câmera 8mm do pai. Apesar de negar que sua influência para a sétima arte tenha surgido daí, fica nítida a ligação. Na verdade, Coppola nasceu numa família de artistas: sua mãe era atriz (Italia Coppola), seu pai era compositor e músico (Carmine Coppola) e sua irmã caçula é atriz (Talia Shire); posteriormente, sua filha se tornou atriz/diretora (Sofia Coppola) e seu sobrinho, ator (Nicolas Cage), para ficar nos mais famosos.

Aos 17 anos, depois de ganhar experiência produzindo vários curta-metragens com a câmera do pai, Coppola se inscreve na Universidade de teatro Hofstra. Quatro anos depois, entra na UCLA, renomada Universidade da época, especializada em cinema. Mas o excesso de disciplinas teóricas (e, por conseguinte, a falta de aulas práticas) fez com que ele desistisse da vida acadêmica, indo trabalhar como assistente do diretor de filmes "B", Roger Corman.

Aos poucos, se tornou o homem de confiança de Corman, consquistando cada vez mais espaço para mostrar suas ideias e criações. Apesar disso, Francis se sentia mais a vontade era escrevendo roteiros. Inclusive, o primeiro de seus incontáveis Oscars® veio com o roteiro que ele fez para o filme "Patton - Rebelde ou Herói?", de 1971. Seu sucesso lhe garantiu grandes amizades dentro dos estúdios da Warner, fato que seria imprescindível alguns anos depois.

Em 1968, enquanto dirigia um de seus piores trabalhos ("O Caminho do Arco-Íris"), descobriu um dos grandes talentos da época estagiando na produção desse filme: George Lucas. A amizade entre os dois foi responsável pelas melhores criações que o cinema mundial já viu, além de possibilitar a Coppola a fundação de seu próprio estúdio: o American Zoetrope.

Entre um fracasso e outro, um grande sucesso aqui e ali, o estúdio foi responsável por revelar outros diretores de grande calibre, como Carrol Ballard, Hal Barwood, John Korty, Williard Huyck, Gloria Katz, John Milius, Mathew Robbins e Martin Scorsese. Apesar disso, os blockbusters do estúdio foram mesmo aqueles dirigidos por Coppola.

Isso fica mais evidente se tomarmos como referência apenas a década de 1970, sua fase de maior e melhor produção. Filmes que marcaram uma geração e se tornaram "cult" para outras. Filmes que têm como marca o autoritarismo, às vezes de maneira explícita, outras mais reservadas.

Seus filmes, diferentemente de outros diretores, não segue uma forma básica. Suas obras são todas "primogênitas", se reinventando a cada claquete inicial. Infelizmente, como é natural a cada recomeço, algumas dessas obras deixaram muito a desejar.

Mesmo assim, seus filmes acumularam inúmeras premiações ao redor do globo. Entre eles, 15 prêmios Oscar®. Foi responsável por um fato até hoje inédito na festa maior do cinema: produziu a única sequência vencedora da estatueta de Melhor Filme ("O Poderoso Chefão I e II").

Alguns de seus filmes que eu recomendo:


H (um dos favoritos.. de todos)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Diretores - Federico Fellini



"Para o cinema tudo se torna uma mensa natureza-morta, até os sentimentos dos outros são qualquer coisa de que se pode dispor." [F. F.]

Federico Fellini nasceu em 20 de janeiro de 1920, na cidade de Rimini, Itália. Era o filho mais velho dos três que o casal Urbano e Ida teve.

Ao completar 19 anos, mudou-se com sua mãe para a cidade natal dessa (Roma), onde decidiu cursar faculdade de jornalismo, muito influenciado pela representação desse profissional presente nos inúmeros filmes americanos que assistiu durante sua adolescência.

Logo mostrou ter um talento nato para a caricatura e o humor. Dessa forma, conseguiu um trabalho bem remunerado escrevendo artigos em um programa semanal satírico muito popular na época – o Marc’Aurelio. Foi nesse período em que conheceu o ator Aldo Fabrizi, dando início a uma amizade que se estendeu para a colaboração profissional (com o diretor Roberto Rossellini) e um trabalho em rádio (quando conheceu sua futura esposa, Giulietta Masina).

Em 1946, já na produção de seu segundo roteiro, juntamente com Rossellini, Fellini entra pela primeira vez numa sala de edição e descobre como são feitos os filmes italianos. Estava dado o passo fundamental para o surgimento de uma carreira magnífica.

Seis anos depois, teve sua estréia como diretor solo (em 1950, o filme “Mulheres e Luzes” foi co-dirigido com o amigo Alberto Lattuada) pela película “Abismo de um Sonho”. É uma releitura de uma fotonovela - comuns na Itália daquela época - de Michelangelo Antonioni, feita em 1949, que conta a história de um casal recém-casado cujas aparências de respeito são devastadas por fantasias da esposa inexperiente. O merecido sucesso veio na sua produção seguinte, “Os Boas-Vidas”, considerado o seu primeiro grande filme.

Com uma combinação única de memória, sonhos, fantasia e desejo, os filmes de Fellini (muitas vezes tidos, erroneamente, como autobiográficos) têm uma profunda visão pessoal da sociedade, não raramente colocando as pessoas em situações bizarras. Eternizado pela poesia de seus filmes, que mesmo quando faziam sérias críticas, não deixavam a magia do cinema de lado, trabalhou suas trilhas sonoras com maestria, na grande maioria das vezes com o compositor Nino Rota.

Suas produções renderam, entre outros prêmios, 4 Oscars® de Melhor Filme Estrangeiro (além de 8 indicações para Melhor Roteiro) e 4 premiações no Festival de Cannes. Indicado 4 vezes ao Oscar® de Melhor Diretor, Fellini recebeu, em 1993, o Oscar® Honorário pela sua contribuição e conjunto de sua obra. Com certeza, muito pouco crédito para quem é considerado o diretor mais influente de todos os tempos.

Nos anos de 1991 e 1992, trabalhou junto com o diretor canadense Damian Pettigrew para ter o que ficou conhecida como "a mais longa e detalhada conversa jamais vista sobre filmes", que depois serviu de base para um documentário e um livro lançados anos mais tarde: "Fellini: Eu sou um grande Mentiroso" (2002). Tullio Kezich, crítico de filme e biógrafo de Fellini descreveu esses trabalhos como sendo "O Testamento Espiritual do Maestro".

Morreu em 31 de outubro de 1993, em sua casa, de ataque cardíaco, deixando-nos um legado com mais de 20 filmes. Obras inspiradoras e inimitáveis. Perfeitas, além de suas essências.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:

* A Estrada da Vida (1954)
* Noites de Cabíria (1957)
* A Doce Vida (1960)
* Fellini 8 1/2 (1963)
* Satyricon (1969)
* Amarcord (1973)
* E la Nave va (1983)
* Ginger e Fred (1986)


H ("Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade." [F. F.])

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Diretores - Elia Kazan


"Pegadas na areia do tempo? Bobagem! Amanhã irá chover". [E. K.]

Nascido Ilías Kazantzóglu, em 7 de setembro de 1909, na antiga Constantinopla (atual Istambul), filho de imigrantes gregos, mudou-se para os EUA em meados da década de 1910, ainda criança.

Instalando-se em Nova Iorque, seu pai, George Kazantzóglu, se tornou um respeitável comerciante de tapeçarias e esperou que o filho assumisse os negócios assim que terminasse seus estudos. Porém, contrariando seu pai e seguindo mais o conselho de sua mãe, Athena (que lhe dizia para seguir seus próprios sonhos), assim que terminou seus estudos básicos, Elia Kazan decidiu fazer arte dramática na Universidade de Yale.

Durante a década de 1930, atuou em inúmeras peças de sucesso da Broadway. E, como uma coisa leva a outra, na primeira oportunidade que teve, lançou-se como diretor de teatro. Seu prestigio saltou da Broadway, chegando até Hollywood, quando as portas se abriram para ele dirigir seu primeiro longa, "Laços Humanos" (1945). Seu destaque foi discreto, tanto em público quanto em crítica. Porém, dois anos depois, surge sua primeira grande produção: "A Luz é para Todos". Como uma história girando em torno do anti-semitismo da recém terminada Segunda Guerra, o filme acumulou premiações, recebendo 8 indicações ao Oscar® e faturando 3 estatuetas.

Em 1951, Elia Kazan fez o que parecia improvável para a época: dirigiu, ao mesmo tempo, a peça "Uma Rua Chamada Pecado" e sua adaptação para o cinema. No filme, Elia pessoalmente escolheu para o papel de protagonista um ator até então pouco conhecido, mas que, segundo o próprio diretor, parecia ter nascido para interpretá-lo: Marlon Brando (foto, ao lado do diretor).

Estava formada uma das parcerias mais premiadas do mundo cinematográfico. Juntos, fizeram ainda “Viva Zapata!” (1952) e o grande sucesso da carreira de Kazan, “Sindicato de Ladrões” (1954).

Aliás, esse último, marca, talvez, a maior contribuição que o diretor deixou de herança para o cinema. A criação de um novo subgênero para a arte: o mocinho delator. Vale a explicação:

No começo da década de 1950, quando foi perseguido pelo Macarthismo (movimento de perseguição e repressão anticomunista, instaurado pelo senador Joseph McCarthy), Elia Kazan que, de 1934 a 1936, havia participado do partido comunista nacional, resolveu “entregar” alguns de seus colegas dos tempos da Broadway. Conversando com seu grande amigo da época (Arthur Miller), Kazan disse que não tinha outra opção se quisesse continuar na carreira que havia escolhido. Afinal, a Twentieth Century Fox já tinha dito que fecharia as portas a ele caso as denúncias do Comitê de Atividades Anti-americanas fossem mesmo confirmadas.

Logo, o nome do diretor virou sinônimo de “Judas” dentro dos universos do cinema e do teatro. Restavam-lhe poucos amigos e raríssimos atores de calibre aceitavam trabalhar com ele. Mas Kazan teve uma idéia assim que começou a conversar com Malcolm Johnson e Budd Schulberg sobre o roteiro de seu próximo trabalho: virar a mesa.

Muitos ficaram indignados quando viram o filme (o já citado “Sindicato de Ladrões”) se transformar no grande “papa-estatuetas” do Oscar® de 1955 (das 12 indicações que teve, levou 8 prêmios). O filme conta a história do ex-boxeador Terry Malloy que trabalha como estivador no porto de Nova Iorque. Ele faz parte da turma que dá sustentação ao sindicato que domina a corrupção no porto. É considerado um vagabundo, um inútil que nada sabe além de usar sua força. Perdeu a grande chance de ser campeão em sua época porque seu irmão havia apostado alto no adversário e obrigou-lhe a perder a luta. Quando o sindicato resolve dar um susto em um homem que tentou delatá-los a justiça, Terry é usado para atraí-lo, mas os planos do sindicato de liquidá-lo não eram os imaginados por Terry que não gostou da morte do amigo. Edie, irmã do homem assassinado, busca provas para encontrar o assassino do irmão e Terry engraça-se com ela. A convivência entre os dois e outros acontecimentos fazem Terry questionar seus valores morais e suas atitudes. Daí surge uma das melhores frases (minha modesta opinião!) já pronunciadas na telona: “Você não entende! Eu poderia ter classe. Eu poderia ser um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou”.

Porém, a sina continuou a persegui-lo. Tanto que, em 1999, quando a Academia de Artes Cênicas decidiu premiá-lo com um Oscar® Honorário por sua contribuição a sétima arte, muitos dos atores presentes naquela noite mantiveram-se sentados, de braços cruzados, ou com feições de nítida repulsa pela escolha. Outros artistas, como Sean Penn e Richard Dreyfuss, vieram a público declarar sua oposição pela escolha da Academia.

Culpado ou não, a verdade é que Elia Kazan foi o estrangeiro que melhor conseguiu traduzir as várias faces da vida americana. Uma vida da qual ele foi vítima e protagonista, porém, nunca um coadjuvante. Morre em 28 de setembro de 2003, na cidade de Nova Iorque.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:

* Laços Humanos (1945)
* A Luz é para Todos (1947)
* Uma Rua Chamada Pecado (1951)
* Sindicato de Ladrões (1954)
* Vidas Amargas (1955)
* América, América (1963)
* O Último Magnata (1976)


H (Judas ou não, cada filme vale ser visto mais de uma vez..)

sábado, 5 de setembro de 2009

Diretores - David Lynch



Idéias são como pescar: você precisa de isca e anzol. Se você quiser pegar um peixe pequeno, você não precisa ir muito longe. Por outro lado, se quiser pegar um peixe grande, você tem que ir mais fundo.”[D.L.]

David Keith Lynch nasceu em Missoula, uma cidadezinha do noroeste dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 1946. Filho de agricultores, teve uma infância nômade pelo interior do país. Influenciado por isso, pelas belas paisagens que viu e, principalmente, depois de conhecer o pai de um amigo que era pintor profissional, Lynch começou a nutrir o sonho de se tornar um. Assim que terminou os estudos básicos, especializou-se sobre o tema numa academia de arte.

Em busca de maiores inspirações, largou o curso e fez uma viagem de quase 2 anos pela Europa Ocidental. Quando voltou, resolveu retomar os estudos, entrando na Academia de Belas Artes da Pensilvânia. Em 1967, casou-se com uma colega de curso, com quem teve sua primeira filha (a também diretora, Jennifer Chambers Lynch).

Reza a lenda que sua aproximação com o cinema se deu numa experiência que teve quando, ao observar um de seus quadros, ouviu o vento soprar, e era como se a folhagem na pintura estivesse se movendo. Percebeu, assim, a maior limitação das artes plásticas (a imobilidade). Decidiu, então, incluir movimento em seus quadros, e, em 1966, fez seu primeiro curta de animação, “Six Figures Getting Sick”, onde seis cabeças esculpidas por ele aparecem vomitando 6 vezes seguidas. Em 1971, começou a trabalhar na produção de seu primeiro longa-metragem, “Eraserhead” (1977). E não foi tarefa fácil, tomando seis anos de sua vida para a sua conclusão, além do final de seu casamento. Muitos enxergam nesse filme uma história autobiográfica, que mistura o tão famoso mundo bizarro de Lynch com a arte do stop-motion.

Entre o público que o filme atraiu (pouco mais de meia dúzia.. rs), estava o produtor Mel Brooks. Este já estava há um bom tempo querendo produzir um filme baseado numa história real, porém, não conseguia encontrar o diretor perfeito para a película. As idéias que surgiram a partir das conversas entre Lynch e Brooks, fez esse último desistir de creditar seu nome da produção (com medo que sua fama de comediante desse às pessoas a impressão errada sobre o filme). Impossível dizer se essa atitude influenciou ou não no sucesso que “O Homem Elefante” conseguiu atrair em público e crítica. Indicado a oito Oscar® (inclusive o de Melhor Diretor), conta a história real de John Merrick, um homem na Inglaterra vitoriana nascido extremamente deformado, e usado como aberração circense.

Seu próximo trabalho (a ficção-científica “Duna”, de 1984) foi um fracasso. Porém, Lynch foi esperto: ao fazer o contrato de “Duna” com seu produtor, Dino de Laurentis, ele concordou apenas caso a produtora bancasse seu próximo filme, e lhe desse total liberdade de produção. Dessa segunda parceria dos dois, nasceu o filme que botou por definitivo a carreira do diretor nos holofotes: “Veludo Azul”. Tendo como cenário uma das óticas preferidas do diretor (uma calma cidadezinha interiorana), conta a história de Jeffrey, um pacato cidadão de uma aparente perfeita cidade que, ao descobrir num descampado uma orelha humana, se vê cercado pelo submundo do crime que habita a cidade, indo de encontro ao psicopata Frank e à cantora Dorothy. Todo o sucesso do filme rendeu-lhe sua segunda indicação à Melhor Diretor no Oscar®, e começou aqui sua eterna parceria com o compositor Angelo Badalamenti.

Quatro anos depois, David Lynch foi convidado a fazer um seriado de televisão nos mesmos moldes de seu último filme, e, numa perfeita parceria com o roteirista Mark Frost, surge “Twin Peaks”, um seriado que se tornou amplamente cultuado e redefiniu o conceito de programa televisivo. Aqui temos novamente a cidade de interior, localizada na fronteira oeste dos Estados Unidos com o Canadá. Tudo começa quando é encontrada morta Laura Palmer, adorada garota da cidade e líder de torcida, embrulhada em plástico e com sinais de estupro e uso de drogas. Isso leva à cidade o agente do FBI Dale Cooper para investigar o caso, e lentamente percebemos que todos na cidade têm algo para esconder. Lynch dirigiu apenas o primeiro episódio, já que estava entretido na produção e divulgação de seu novo filme.

Em 1990, apresenta “Coração Selvagem”, uma adaptação do livro homônimo de Barry Gifford. No ano seguinte, o filme é exibido no Festival de Cannes e recebe a Palma de Ouro®. A partir daqui, o diretor entra numa jornada de idas e vindas, entre Estados Unidos e França, lançando trabalhos, ao mesmo tempo, cultuados e severamente criticados.

Há quem diga que Lynch não é um diretor de cinema, e sim um artista que se utiliza do meio cinematográfico para se expressar. Não que não seja verdade, mas suas obras, até pelo seu passado artístico, são bem mais profundas do que aparentam.

Não chegam a ser obras surrealistas por completo. O que temos em Lynch é uma constante busca pela imagem arrebatadora e inesquecível, cuidadosamente trabalhada, e que, por vezes, utiliza-se do surreal e do obscuro para causar impacto, e fazer-nos entrar no clima.

Quem quiser saber mais sobre o artista David Lynch, pode acessar o seu site aqui.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:


H (demorou, mas ele saiu!)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Diretores - David Lean


"Todos os elementos da filmagem conduzem a um resultado muito simples: entreter as pessoas. Mas, são as emoções humanas, e não os circos, que formam uma grande imagem." [D. L.]

David Lean nasceu no Surrey, região da Grande Londres, Inglaterra, em 25 de março de 1908. Vindo de uma família tradicional, foi muito repreendido, durante sua infância e adolescência, principalmente pelo fato de demonstrar uma grande adoração pela sétima arte. Seus familiares não viam esse gosto com bons olhos. Achavam que era algo para desocupados e pessoas sem futuro.

E, como tudo que é proibido ganha ainda mais almejo, sua paixão só cresceu. Chegou a tal ponto que, aos 20 anos, ele decidiu largar sua carreira de contador e se lançou de cabeça no mundo do cinema.

Começou por baixo, como ajudante geral dos estúdios Lime Grove, onde fazia um pouco de tudo. Desde servir chá até carregar pesadas latas de negativos. Nos 15 anos seguintes, foi galgando pequenas brechas e oportunidades. Era esperto, curioso e muito esforçado, qualidades que logo foram reconhecidas e recompensadas.

Em meados da década de 1930, chegou ao posto de editor dos noticiários que passavam antes das sessões de cinema. Pode parecer um trabalho chato, mas exigia muito conhecimento técnico e ele o possuía com maestria. Quatro anos depois, foi convidado pelo diretor francês Marcel Varnel a editar seu primeiro filme em língua inglesa, "Freedom of the Seas". Começava aí sua "real" carreira no cinema nesse posto que, só foi interrompida em 1942, quando ele decidiu dar um passo além e assumir a direção de "Nosso Barco, Nossa Alma", aceitando o convite do ator/roteirista Noel Coward. O filme traz uma análise psicológica de um grupo de náufragos, enquanto esperam por resgate.

A parceria dos dois ainda rendeu outros três filmes, com destaque para "Desencanto", pelo qual ganhou o grande prêmio no Festival de Cannes de 1946. Nesse mesmo ano, a parceria é encerrada.

"Grandes esperanças", de 1946, além de ser conhecido como a estréia de Alec Guinness na telona, marca a primeira adaptação por David Lean de um conto de Charles Dickens. O filme foi um sucesso de crítica, faturando três Oscars.

Depois de quase uma década fazendo produções medianas, surge o filme que mostrou, para quem ainda tinha dúvidas, que Lean era um dos melhores diretores da época: "A Ponte do Rio Kwai", de 1957. Sucesso é pouco para descrevê-lo. Vencedor de 7 Oscars, deu a David Lean o reconhecimento (não que ele precisasse!) que merecia. Logo Alec Guinness se tornou seu ator favorito. Ao todo, ator e diretor estiveram juntos em 5 películas. Certa vez, ao comentar sua incursão ao set de filmagem do (sensacional!) "Lawrence da Arábia", de 1962, um jornalista inglês disse: "quem não soube, diria que eles [David Lean e Alec Guinness] se tratavam como pai e filho."

Muito detalhista e apaixonado por épicos, David Lean trouxe em seus filmes mais destacados uma característica que o marcaria e consagraria ao mesmo tempo: o choque entre culturas diferentes. Principalmente a surpresa e falta de tato da "experiência inglesa" diante do desconhecido trazido por outra cultura.

Em 1984, após terminar as gravações de seu "Passagem para a Índia", recebeu o título de Cavalheiro do Império Britânico (Sir.). Passou os sete anos seguintes tentando adaptar o livro "Nostromo", do escritor inglês Joseph Conrad (que também escreveu o ótimo "O coração das trevas"!). Já tinha até elenco escolhido quando, 6 semanas antes do início das gravações, David Lean morreu de câncer, em 16 de abril de 1991.

Ao longo de sua vida, diferentemente de muitos outros diretores, conquistou o respeito e admiração de vários colegas como Stanley Kubrick, Sergio Leone e Sydney Pollack; além de inspirar outros, como George Lucas e Steven Spielberg.

Alguns de seus filmes que eu recomendo:

* Desencanto (1945)
* Grandes Esperanças (1946)
* Quando o Coração Floresce (1955)
* A Ponte do Rio Kwai (1957)
* Lawrence da Arábia (1962)
* Doutor Jivago (1965)
* Passagem para a Índia (1984)

H (a marchinha de "A Ponte..." é inesquecível!)

domingo, 26 de julho de 2009

Diretores - Costa-Gavras

"O nosso inimigo não é a nossa espécie, mas o sistema em que vivemos. Tornamo-nos insensíveis e consumidores. Limitamo-nos a trabalhar, fazer compras, comer e dormir." [C. G.]

Se na composição de scores, a Grécia tem o excepcional Vangelis como melhor expoente, atrás das câmeras, esse papel cabe a Constantin Gavras.

Nascido no pequeno vilarejo de Lutra Iréas, em 12 de fevereiro de 1933, numa família pobre, passou a infância na península do Peloponeso.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a família se mudou para a capital, Atenas, onde ele terminou os estudos. Mas a vida não foi fácil para a família. Seu pai, membro da esquerda grega durante a Guerra Civil que assolou o país até 1949, foi preso sob acusação de ser comunista.

Mesmo com o fim da Guerra Civil, Constantin se viu perseguido e resolveu se mudar para Paris, estudar Literatura na Universidade de Sorbonne, em 1951. Mas o ambiente literato não o agradava tanto. Assim, em 1956, ele desistiu da Literatura para estudar na Instituto de Estudos Cinematográficos (IDHEC). Após a sua formação, assumiu o nome artístico de Costa-Gavras e começou a trabalhar como assistente de vários diretores, com destaque para Yves Allegret, René Clair e René Clement.

Estreou na carreira de diretor em 1965, com o filme "Crime no Carro Dormitório". Quatro anos mais tarde, ganhou destaque internacional com sua terceira produção, "Z", que denuncia abusos da ditadura militar na Grécia, nos anos 1960. O filme venceu o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Depois de algumas produções medianas, foi nomeado, em 1981, presidente da Cinemateca francesa.

No ano seguinte, aceitou o convite do produtor Edward Lewis para dirigir o magnífico "Desaparecido, um Grande Mistério" (seu único trabalho musicado pelo conterâneo Vangelis) nos estúdios da Universal. Responsável também pelo roteiro, o filme acumulou premiações, como a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. A história aborda a ditadura chilena, durante o governo Pinochet.

E, o que era para ser apenas uma passagem rápida, se prolongou por quase duas décadas, tendo fim com o pertubador "O Quarto Poder", em 1997. Quatro anos depois, já de volta à França, foi novamente nomeado presidente da Cinemateca francesa.

Em seus filmes, a temática política é tão constante como a sua análise dos aspectos sociais mais intrigantes que a permeia. É um dos meus diretores favoritos, não por bater incessantemente na tecla política, mas por ser um dos únicos a tratar desse tema de forma tão perfeita que beira o real.

Ainda trabalhando a todo vapor, seu projeto mais recente, Eden à L'Ouest (ainda sem título em português), está previsto para estrear ainda esse ano.

Alguns de seus filmes:

H (por que tudo que é bom dura pouco?!)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Diretores - Clint Eastwood

''Eram os meus personagens que saíam atirando por aí. Eu pessoalmente nunca dei um tiro em ninguém''. [C. E.]

"Eu gosto do Clint Eastwood porque ele tem somente duas expressões faciais. Uma com o chapéu e outra sem ele." [Sérgio Leone]

Clinton Eastwood Jr. nasceu em São Francisco, Califórnia, em 31 de maio de 1930. Durante sua adolescência, morou em Piedmont, uma pequena cidade da Califórnia, e em 1949, realizou seu sonho de se formar na Universidade de Oakland. Após o término da faculdade, trabalhou como atendente em um posto de gasolina, foi bombeiro e tocou piano em um bar.

Sua carreira como ator começou ainda na década de 1950, fazendo pequenas aparições em filmes pequenos. Em 1958, ele conseguiu seu primeiro papel oficial no filme, "Ambush at Cimarron Pass", o qual considerou um filme muito fraco.No ano seguinte, ele trabalhou com James Garner em um episódio da série "Maverick". Após isso, Eastwood se dedicou somente a trabalhar na TV com a série de western "Rawhide", na qual interpretava o personagem Rowdy Yates (que Eastwood, na época, descreveu como "O idiota das Planícies").

Sua sorte mudou quando os produtores italianos Arrigo Colombo e Giorgio Papi viram naquele homem alto, magro e meio caladão o tipo ideal para estrelar ''Por um Punhado de Dólares'', filme que iria iniciar um novo gênero no cinema: o ''western spaghetti''. Também conhecido como bang-bang à italiana. Sob a direção de Sérgio Leone, Clint vestiu-se de preto e encarnou um pistoleiro solitário, um personagem sem nome que não pensava duas vezes para fazer justiça com as próprias pistolas. O sucesso foi tanto que ''Por um Punhado de Dólares'' teve mais duas continuações: ''Por um Punhado de Dólares a Mais'', em 1965, e ''Três Homens em Conflito'', de 1966.

Em pouquíssimo tempo, Clint chegou à condição de astro e voltou aos Estados Unidos para filmar muito: mais de 40 filmes na fase ''pós spaghetti''. Dentre vários papéis, posso destacar o durão policial-personagem Dirty Harry.

O que ninguém esperava era que Clint fosse se transformar no diretor extremamente sensível de hoje. Dirige muito bem dramas. Depois de fundar sua própria produtora, a Malpaso, como uma resposta direta a um famoso produtor de Hollywood que aconselhou Clint a nunca abrir uma empresa de cinema, começou a produzir seus próprios filmes e destacou-se por quase todos serem de orçamento baixo. Ao longo dos anos, desenvolveu relações com outros diretores e produtores. Clint prefere trabalhar sempre com a mesma equipe de produtores, editores e técnicos. Tem uma longa relação com a Warner Bros., estúdio que financia a maioria de seus filmes. Mesmo assim, em 2004, Eastwood declarou ao The New York Times que tem certa dificuldade para fazer a Warner aceitar alguns de seus projetos, como aconteceu com "Menina de Ouro".

Eastwood tem conquistado grandes elogios dos críticos como diretor. Nos últimos 20 anos, tem se mostrado o diretor mais versátil e atuante que existe. Desde "Bird", em 1988, até o ainda inédito "The Human Factor", marcado para estrear esse ano, Clint nos mostra que um bom filme não precisa ser baseado só em efeitos especiais ou orçamentos astronômicos. Bastar ter um bom roteiro, uma boa equipe e um vocabulário limitado a simples "ok", "ação" e "corta".

Com o mesmo estilo durão que o consagrou em seus westerns, Clint Eastwood é capaz de tirar de seus atores, em pouco menos de duas horas, choros e risos, lágrimas e sorrisos, interpretações sensíveis e vazias. A trilha sonora de seus filmes mais recentes é um capítulo à parte. Emocionante, muitas vezes inspiradas em seu grande ídolo, Ennio Morricone.

Alguns de seus filmes (como diretor!) que eu recomendo:

* O Cavaleiro Solitário (1985)
* Bird (1988)
* Gran Torino (2008)



H ("Vá em frente, faça meu dia!" [C. E. como Dirty Harry, no filme Impacto Fulminante])

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Diretores - Billy Wilder

"Há algo surpreendente: quando reflito sobre os meus filmes, a minha atenção que, na hora estava deprimida, eu só fazia comédias. E quando estava feliz, rodava melhor as tragédias. Talvez inconscientemente estava tentando compensar cada um dos meus estados de ânimo." [B. W.]

Nascido em 22 de junho de 1906, na Polonia, Samuel Wilder (seu verdadeiro nome), filho de judeus, primeiramente pensou em seguir a carreira de advogado. Mas, com a mudança da família para Viena, abandonou a faculdade de Direito e decidiu-se pela carreira de jornalista. Anos mais tarde, já experiente, foi trabalhar num tablóide em Berlim.

Durante essa época, iniciou sua participação no mundo do cinema como roteirista, colaborando, inclusive, no roteiro de “People on Sunday” do diretor Robert Siodmak. Tudo parecia correr bem para Wilder e sua família até que, em 1933, com a ascensão nazista na Alemanha, mudou-se para a França, onde trabalhou na co-produção de alguns filmes “B”.

Em meados de 1935, mudou-se para os Estados Unidos. Os dois primeiros anos foram muito difíceis. Sem saber falar uma palavra sequer em inglês e vivendo em condições precárias, Billy Wilder (nome que assumiu assim que pisou em solo norte-americano), manteve-se ativo como roteirista, mas só começou a brilhar em 1938, quando formou dupla com Charles Brackett. A parceria foi tão boa que, a partir de 1942, a dupla começou a fazer filmes, com Brackett produzindo e Wilder na direção.

Assim, Billy Wilder estreou na direção com a comédia "A Incrível Suzana", dando início a uma filmografia impressionante, caracterizada principalmente pelos aspectos cínico e mordaz. A inteligência do texto de Wilder faz com que a maioria de seus trabalhos seja interessante. Seu trabalho com Brackett rendeu clássicos como “Farrapo humano” (1945; Oscar de Melhor Filme, Direção e Roteiro) e “Crepúsculo dos deuses” (1950; Oscar de Melhor Roteiro), após o qual, findou a parceria.

Seus filmes seguintes foram produzidos por ele mesmo, como “A montanha dos sete abutres” (1951), e as comédias “Quanto mais quente melhor” (1959) e “Se meu apartamento falasse” (1960), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção. Aposentou-se em 1981.

Em 1988, durante a cerimonia do Oscar, recebeu o prêmio Irving G. Thalberg Memorial Award, por sua colaboração para com o universo da sétima arte. No início da década de 1990, depois de ser cotado para dirigir “A Lista de Schindler” e descartar imediatamente a possibilidade por estar muito velho para o trabalho e achar que o assunto era muito pessoal (os pais e os avós de Billy morreram no campo de concentração de Auschwitz durante o Holocausto), ele mesmo incentivou um diretor até então pouco conhecido (Steven Spielberg) a assumir a direção do longa, aceitando colaborar de maneira discreta no roteiro do filme.

Billy Wilder, uma das mentes mais brilhantes da história do cinema, morreu de pneumonia em 27 de março de 2002, aos 95 anos de idade, após enfrentar problemas de saúde, incluindo câncer, em Beverly Hills, Los Angeles. Em sua longa carreira de roteirista, cineasta e produtor (mais de 50 anos), deixou-nos um legado de mais de 60 filmes.

Alguns de seus filmes que recomendo:
* Fedora (1978)

H (Adoro a televisão. Antes dela, sempre dizia que o cinema era a arte mais vagabunda que existia. Agora já estamos em segunda lugar." [B. W.])

terça-feira, 9 de junho de 2009

Diretores - Bernardo Bertolucci

"O cinema é uma maravilhosa máquina do tempo: é possível apresentar aos jovens de hoje os jovens da década de 60 que tinham um objetivo pelo qual lutar."

Bernardo Bertolucci nasceu em Parma, Itália, em 16 de março de 1941. Filho de um crítico literário e poeta, Attilio Bertolucci, Bernardo fez vários filmes amadores enquanto adolescente e, poeta desde a infância, ganhou em 1960, um prêmio nacional pela coletânea de poemas ''In Search of Mystery''.

No ano seguinte, Bertolucci abandonou a Universidade de Roma para ser assistente do diretor Pier Paolo Pasolini no seu filme “Accattone”. Tinha o diretor como uma figura paternal, de grande influência. Além de Pasolini, Jean-Luc Godard foi outro que influenciou seus primeiros filmes.

Em 1962, Bertolucci estreou na direção com ''A Morte'', um drama policial de pouco impacto de crítica e público. Mas logo em seu segundo filme, “Antes da revolução”, já obteve reconhecimento e muitos elogios da crítica, chegando a ganhar um prêmio na França. A película se baseia na relação de um jovem com as questões sociais de sua época. Possui vários elementos que refletem o próprio Bertolucci, e foi co-estrelado por Adriana Asti, esposa do diretor na época.

Na década de 1960, entre outros trabalhos, Bertolucci ainda dirigiu documentários sobre petróleo, e assinou a história do clássico faroeste ''Era Uma Vez no Oeste''. A década seguinte foi a mais significativa de sua carreira. Em 1970, dirigiu ''A Estratégia da Aranha'' (baseado em texto de Jorge Luis Borges), sobre um filho buscando informações sobre o assassinato de seu pai antifascista. Foi aqui também que Bertolucci, buscando tornar-se um diretor popular, substituiu o cinema poesia pelo cinema espetáculo, mas sem abandonar seus dilemas. Nessa época, inclusive, a psicanálise pela qual passava, começou a manifestar-se intensamente na tela, levando Bertolucci a dizer para seu psicanalista: ''seu nome deveria aparecer nos créditos dos meus filmes''.

Já nos Estados Unidos, seguiu-se sua tríade de sucesso: “O Conformista” (1970), que chegou a ser indicado para o Oscar® de melhor roteiro; “O Último Tango em Paris” (1972), que escandalizou meio mundo e deu a Bertolucci mais uma chance de concorrer ao Oscar®, desta vez como diretor; e “1900” (1976), um filme monumental e muito ambicioso, que tirou de um crítico alemão a seguinte frase: ''Bertolucci tenta harmonizar Marx e Freud''.

Um dos nomes mais importantes do cinema mundial nos últimos 30 anos, Bertolucci faz um cinema de forte apelo visual, caracterizado principalmente pelas temáticas política (esquerdista) e humana (com ênfase no sexo). Sua consagração veio em 1987, com “O Último Imperador”, que recebeu nove Oscars®, incluindo os de melhor filme e melhor diretor. O filme retrata a vida real de Pu-Yi, o último representante da realeza chinesa e destaca-se por sua suntuosidade visual.

Bertolucci é um cineasta ousado, que gosta de movimentos de câmera sofisticados, roteiros inteligentes e não tem medo de experimentar, mesmo quando trabalha com grandes orçamentos. Está em plena atividade e certamente vai virar o século à procura de um novo "clássico" para a sua já ampla coleção.

Alguns de seus filmes que recomendo:

H (foi difícil!)